sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O DIA DOS NAMORADOS #3

Na Escola Secundária onde estudei lembraram-se um dia de fazer um marco postal de cartolina. Enfeitaram-no com redondos corações, e sobre ele um letreiro que convidava os alunos a enviar cartas à sua secreta paixão. Para que os carteiros do amor - algum imbecil da Associação de Estudantes que queria arranjar algum pretexto para escrever uma secreta carta à sua inconfessável princesa* - entregassem as missivas ao correcto destinatário bastava que no sobrescrito estivesse anotado o nome e a turma da pessoa contemplada. Recordo-me de estar na aula de Inglês quando elas chegaram. Como seria de esperar, os bonitos e populares tinham remessas delas, e o riso e apupos dos outros. Mas quando algum dos outros era premiado, o riso e os apupos eram maiores. Contingências de ter nascido feio e envergonhado. Curioso foi notar que apenas uma rapariga recebeu correspondência. Eu sabia de quem era, mas não lho podia dizer quando ela mo perguntou. O infeliz apaixonado confidenciara-me que não fora capaz de assinar a carta. Questionei-o sobre a pertinência de escrever uma carta de amor sem a assinar. Esperava que ela, ao saber-se secretamente amada, abrisse finalmente os olhos, os da cara e os do coração, e o visse, a ele, que sempre ali estivera.

Não sei se foi aquele o primeiro ano em que fizeram este ridículo marco postal. Não me recordo de nenhum no ano anterior, o primeiro em que frequentara aquela escola. Talvez até tenha havido. Mas nesse tempo tinha uma pessoa que se vinha sentava a meu lado, e no meu colo, e me chamava nomes ridículos que apenas a mais ridícula das paixões consegue explicar, e que não vou estar para aqui a dizer-vos. Vós, os que já amastes e vós os que amais, sabeis do que falo. Os outros, não lhes quero estragar a surpresa.

No tempo do colégio, também havia quem escrevesse cartas de amor. Saíam e entravam secretamente do colégio. Para as raparigas que os rapazes haviam conhecido nas saídas de Domingo à tarde, e destas para aqueles. Os que tinham a sorte de ser homossexuais não passaram por este sobressalto de andar a passar cartas como quem passa cocaína, tiveram outros (mas isso é outra história, daquelas que dava um romance; fica para outra oportunidade).

No fim, o amor triunfou. O amor triunfa sempre. Os amantes, esses perderam-se muitas vezes, e por muitos caminhos. Mesmo que os amantes se percam, o amor perdurará...**



*Digo «imbecil» porque sei quem foi o da ideia nesse ano, pois eu passava as manhãs na Associação de Estudantes e recusei-me a participar em tal coisa.

**Se alguém souber de quem é esta frase (ou semelhante, pois estou a citar de memória) que me indique, para não deixar os créditos em mãos alheias.

10 comentários:

  1. Primeira vez que venho aqui. Nossa, eu adorei o seu texto sobre o dia dos namorados. Nas minhas escolas nunca aconteceu essa brincadeira das cartinhas, eu sempre achei algo meio besta, mas depois de ler aqui, achei tão fofa a idéia...

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  2. Estas recordações permanecem para sempre gravadas na nossa memória...
    Obrigado pela partilha.
    Abraço.

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  3. eu lembro-me de fazerem isso tambám nas escolas onde andei..!

    no 5º ano cheguei a mandar uma carta, mas a coisa não correu lá muito bem e deixei o anonimato..!

    bj

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  4. «Um amor inacabado é o mais romântico», dizem!
    Todos recebem aquelas cartas de amor... algumas são uma verdadeira comédia, mas outras... uiiii profundo mto profundo :P

    beijinhos

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  5. Muito bem, muito bem...

    Era mesmo ridículo, também me lembro de fazerem isso na secundaria, e a inglês...

    Abraço

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  6. Olá Huntress, Obrigado pela visita. És sempre bem vinda. Não sei se será uma boa ideia. Julgo que o amor deve ser espontâneo, não deve ser estimulado, perde a sua essência... beijinho

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  7. Olá Pinguim, não tens nada que agradecer, eu gosto de partilhar estas memórias, só o não faço mais para não parecer chato. E porque de vez em quando os meus susceptíveis conhecidos se aborrecem, e eu não resisto a chamar-lhes "idiotas" para os provocar,,, Abraço forte

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  8. Olá iAna, pena que não tenha corrido muito bem... nessa idade (é uma pena) ainda há muita coisa que vai mudar tudo das avessas... Beijinho

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  9. Olá Marta, deixaste-me a pensar... depende do que quiserem dizer com "inacabado"... Se for inacabado, porque não acaba, certo! Mas se for inacabado porque não chegou nunca ao ponto, então, é uma tristeza... Beijinho

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  10. Humm Pinto, estás-me a mentir que eu sei! Não terá sido na aula de matemática?

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