quinta-feira, 30 de outubro de 2008

E, PARA QUE SERVE A ALMA SE A NÃO PUDERES NEGOCIAR*?!


Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de um história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.
Carlos Ruiz Zafón, in. O Jogo do Anjo


*PRIVATE MESSAGE PARA UM ANJO: Sim, ultimamente só tenho pensado em dinheiro; porém, cogita um pouco: é regra geral que o ser humano cisme naquilo que lhe faz falta e dê pouca importância àquilo que está à distância de um abraço. O que não significa que aquilo que cabe no aperto de um abraço seja menos importante; apenas menos ausente. E a ausência, a ausência fere.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

AS MÃOS SUJAS*

- Podia parar tudo... Ficarmos só nós os dois. Sós, no momento irreversível** em que os nossos olhares se tocam... E tudo seria perfeito, seríamos felizes.
- É impossível! - Diz-me. - Ambos o sabemos!
- E, no entanto, real...
- Talvez...
- Quem quer que assim seja? - Pergunto-lhe.
- Ambos!
- Ou nenhum... - Replico.
É um complicado jogo de probabilidades...

*Título roubado a uma obra de Jean-Paul Sartre.

**Todos os momentos o são [irreversíveis].

domingo, 26 de outubro de 2008

o silêncio dos livros

o blog o silêncio dos livros, merece uma visita. um paraíso para quem goste de livros e pintura. e fotografia. e imagem. e ... a imagem acima é uma fotografia de Boris Vian, tirada por Pierre Vauthey, intitulada Boris Vian Looking at Book...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Os Meus Parentes

Tenho-me entretido, nas últimas horas, a fazer a minha árvore genealógica, no programa que podem ver ao alto. Versão on-line, e versão home edition, como preferirem... Para mais informações, site aqui.

sábado, 18 de outubro de 2008

E SE PUDESSES VOLTAR ATRÁS?!

Voltavas a correr para os seus braços e voltavas a agarrar-te com a mesma força e impetuosidade ao seu corpo, apesar de todos os dias morreres um pouco e todos os dias sentires essa revolta e esse ódio; e voltavas a acreditar nas suas palavras e numa felicidade incomparável, ainda que todos os dias te perguntes como pudeste acreditar em palavras tão vãs e digas para ti mesmo que o que mais querias era nunca teres conhecido a única coisa por que trocarias a vida. Se pudésses voltar atrás voltarias a errar e a arrepender-te, e voltarias a acreditar e a amar, e voltarias a querer voltar atrás, e passarias a eternidade a voltar atrás, da mesma maneira que todos os dias dizes a ti mesmo que vais esquecer, e passas os dias a recordar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

vezes demais...

«Às vezes dá-se o caso de não se conhecer aquilo que obscuramente se deseja, mas sabe-se que se vai falhar o alvo; e então, deixa-se a vida escoar-se como num quarto trancado onde impera o medo.»

Robert Musil, “A tentação de Verónica, a serena”, in op. cit., pág. 198. [descaradamente roubado daqui]

MAIS UM EXCERTO DE... [não posso revelar o título*]




Texto de Fabrízio Tommasini; pronto, pronto, MDA, eu prometo que é o último excerto que aqui "posto"!

Outros excertos:  aqui, aqui, aqui, e aqui.

domingo, 12 de outubro de 2008

was it all worth it?*

Trabalhas. De manhã à noite. Todos os dias. Compras carro. Casa. Fazes planos. Contas. Nunca batem certo, mas já estás habituado. Vendes a casa. Alugas um apartamento. Mudas de trabalho. Ou ficas no desemprego. Andas de café em café. Deixas versos nas folhas dos jornais. Envelheces. Bebes whisky. Com a mesma vontade com que bebias água, quando eras menino. Fumas um cigarro, e outro, e outro. Dizes que um dia hás-de deixar de fumar. Acordas cedo. Deitas-te tarde. Dormes pouco, lógica conclusão. Juntas uns trocos. Para um dia. Um dia o quê? Compras um iphone, ou um notebook. Abres um livro ao meio. Será desta que vais até ao fim? Um dia o quê? Acordas sobressaltado, a meio da noite. Dez anos depois. Treze anos depois, para ser exacto. Trabalhas. De manhã à noite. Todos os dias... Juntas uns trocos. Para um dia. Um dia o quê? Acordas sobressaltado, treze anos depois. Porque não admites? De uma vez por todas. De modo definitivo. Aguenta-te à brava, ou... Treze anos é tempo suficiente para saberes que esse sobressalto, esse silêncio, esse sonho, essa palavra que nunca chegaste a pronunciar... Podes viver. Viver não importa quanto. Um segundo mais, ou um século. O tempo é indivisível. Essa mágoa é grande demais. Se vais continuar. Continuar sempre. Habitua-te. Trabalhas. De manhã à noite. Todos os dias... Juntas uns trocos. Para um dia. Um dia o quê? Acordas sobressaltado, treze anos depois. Acordas com o mesmo sobressalto há treze anos. Hás-de acordar com o mesmo sobressalto até que. O quê? Até que um dia chegue. Quem? Não, Não penses nisso! Ninguém... Apenas o sono, o sono tranquilo. Mas agora vai dormir, meu menino. Vai dormir que àmanhã é outro dia.


*título da 10ª música do álbum "The Miracle" (1989) dos QUEEN.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

JOSÉ SARAMAGO - NOBEL HÁ 10 ANOS

Como se agora fosse acontecendo, recordo-me deste dia. Foi o dia em que convenci a minha mãe a comprar-me "O Evangelho segundo Jesus Cristo" - "mas esconde-O" disse-me. E para que não me sentisse tentado a mostrá-Lo, presenteou-me também com uma caneta de tinta permanente da Parker. É até hoje a caneta mais cara que possuo. De tal maneira que foi 10 escudos mais cara que o livro.

Na manhã seguinte a professora Filomena chegou à sala de aula com um exemplar de "Memorial do Convento", começou a ler um excerto suavemente erótico. O suficiente para que um rude bando de adolescentes mal-criados galhofasse. Da sua insegurança, desconhecimento, e imaturidade - de que mais poderia ser? A professora fechou o livro.

Atrevam-se a abrir os livros do José, ele merece. 

sábado, 4 de outubro de 2008

noite

A noite,
- Como ela vinha!
Morna, suave,
Muito branca, aos tropeções,
Já sobre as coisas descia,
E eu nos teus braços deitado
Até sonhei que morria

E via -
Goivos e cravos aos molhos;

Um Cristo crucificado;
Nos teus olhos,

Suavidade e frieza;
Damasco roxo puído,
Mãos esquálidas rasgando
Os bordões de uma guitarra.
Penumbra, velas ardendo,
Incenso, oiro - tristeza!...
E eu, devagar, morrendo...

O teu rosto moreninho
 - Tão formoso!
Mostrava-se mais sereno,
E sem lágrimas, enxuto;
Só o teu corpo delgado,
O teu corpo gracioso,
Se envolvia todo em luto.

Depois, ansiosamente,
Procurei a tua boca,
A tua boca sadia;
Beijámo-nos doidamente...
- Era dia!

E os nossos corpos unidos
Como corpos sem sentidos,
No chão rolaram, e assim ficaram!

Pintura de Eric Fischl,
Poema de António Botto.