segunda-feira, 31 de março de 2008

SONHOS

Cão São Bernardo Às vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas... O tempo passa... E descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais! - Bob Marley
"Às vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas... O tempo passa... E descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!" - Bob Marley Cliquem na imagem para ampliar... e... viram o coelho a passar? não era um coelho? de qualquer modo, não se esqueçam de acertar os relógios! E preparem-se para Abril pois: Abril, já dizia o Poeta dos Três Leopardos Brancos, é o mais cruel dos meses. Para lhe sobreviver é preciso ser mais cruel ainda: magoe profundamente a pessoa de quem mais gosta. (via Bibliotecário de Babel). Eu, infelizmente, não tenho a menor possibilidade de magoar a pessoa de quem mais gosto, mas, ai!, como magoaria se pudesse!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Palavras*

Tristes simples viajantes que, exploradas por quem não as usa da forma mais gentil, e enaltecidas por quem as floreia de tal maneira que as torna em delícias para os ouvidos. Fortuna de quem as ama e respeita de maneira honesta para as quais foram talhadas. Desespero ou ficção, há quem sinta necessidade apenas de as ouvir chegar, há quem sinta eterna necessidade de as proclamar, há quem fique sem elas nas alturas mais importantes e há quem as repita aos céus sem se cansar. Fazem regalar o coração quando realizam expectativas, e partem os mesmos quando se revelam por inteiro… Aguardam fervorosamente quando a distancia as separam e chegam atrasadas quanto de suave a morte as atraiçoa. Nada mais do que palavras, meras maquina propulsoras da natureza, no vento ou no tempo, serão perpetuamente simples tristes viajantes!
Trëk
*Outros textos do Trëk: Quebra o Padrão; Infância.

40 PÁGINAS PERDIDAS....*

Afinal o tempo passa depressa. disseste que não voltarias se. e não voltaste. destruiste a tua vida e deixaste a minha assim. em suspenso. pensei que não aguentaria, que ao fim de uma semana, ou vá, não sejamos exagerados, ao fim de um mês morreria. porém, fui inventado desculpas para continuar a viver. entretanto, os dias passaram. faz amanhã onze anos. bem me diziam que a vida continua, continua sempre. apenas o tempo é inexorável; podemos mudar tudo o resto, mas nunca voltaremos atrás. um segundo apenas pode deitar tudo a perder. foi por medo ou por vingança? agora nunca saberei, porque tu te manténs inflexível. nem uma palavra sobre o assunto. se tivesse cedido, como seria? posso ficar o resto da minha vida a fazer perguntas, que nunca saberei as respostas, as respostas estão no passado, e ao passado não podemos retornar. mesmo nós, mudámos. podemos voltar a ser quem éramos? dificilmente. ao corpo, o tempo tratou-o como um cruel carrasco. ao espírito, nós nos encarregámos de o vergastar. com as dúvidas, as angústias, as noites em que não conseguimos dormir. parece que foi ontem. para nós será sempre ontem. pois aquele segundo bastou. o instante em que atravessaste aquela porta e eu virei as costas. talvez fosses carregado pela dúvida e ansiedade. ainda estaria sentado à tua espera, quando regressasses? hesitei e. mal da minha vida, dor insuportável transporto em mim desde esse momento. subi a ladeira e fui-me embora. ansioso, esperei que me fosses procurar. mas tu eras inflexível. sempre foste inflexível, e não me foste chamar. Da última vez que te falei, disseste que não querias que fosse assim, que não querias nada do que tinhas, nem daquilo que tinha acontecido. mas eu é que fugi, fizeste questão de frisar. teria mudado alguma coisa? não teria sido exactamente o mesmo? agora nunca saberemos. um dia a morte virá ceifar-nos. vai encontrar-nos distantes. vai-se rir de nós, da nossa cobardia, do nosso medo. tivémos medo daquilo que desconhecíamos, mas que tanto desejávamos. o instinto foi mais forte que o amor. e um amor que não tem força e coragem para lutar contra os medos da vida, não merece existir. nós não merecíamos um amor assim. fomos indignos do amor com que nos amávamos. fizemos da nossa vida este inferno. a raiva crucifixa-nos. todos os dias morremos pregados à cruz que escolhemos transportar. ainda que estejamos sós, há sempre à nossa volta o insuportável escárnio dos espectros que nos atormentam. escurecemos as nossas horas, fizémos dos nossos dias noites contínuas. o sol não voltará a nascer no horizonte. como este parágrafo, as nossas vidas são um longo lamento. despido de pessoas, de lugares, de tempo.
*Eis o porquê... Desculpem os eventuais erros ortográficos, mas estou sem paciência para corrigir os efeitos da minha dislexia...

quinta-feira, 27 de março de 2008

O MUNDO É A CASA DO AMOR E DA MORTE*

No dia em que completei 19 anos ofereceram-me um livro de contos. O Mundo é a Casa do Amor e da Morte. Quem me ofereceu o livro, recordo-me dos nomes das pessoas, das suas faces, de termos sido amigos, de ainda o ser de algumas dessas pessoas. Ao certo, apenas uma desse rol não contacto há bastante tempo, uns seis ou sete anos, não vou remexer na memória, mas podia ser exacto, que a última vez que lhe falei foi no dia do seu aniversário, depois partiu na corrente da vida. Voltando atrás: quem me ofereceu o livro nunca o leu, nem eu o li. Esta obra de Harold Brodkey ter vindo parar à minha estante, deve-se apenas ao título. Pensaram os meus amigos que eu ia gostar imenso, porque falava de amor e de morte, principalmente porque falava de morte. E eu tinha, segundo as suas palavras, uma atracção mórbida pela morte. Também me ofereceram, as mesmas pessoas, nesse dia, um isqueiro e um postal. Para o caso de lerem este post, não vão pensar que me esqueci. Vamos ao que me levou a começar este post: nesse dia estava na barragem do C, com B, C, e S. Desculpem as iniciais, mas que importam os nomes? Telefonaram-me para ir até à pastelaria P. Eu não podia, que estava muito longe. Pedi-lhes para esperarem e lá estiveram algumas horas. Tenho fotografias desse dia, na barragem, com B, C e S. São as únicas fotografias que tenho de B, C, e S. Foi nesse dia que me zanguei com B. Para sempre. C e S nunca souberam porque é que eu e B deixámos de nos falar. Hoje penso que também eu não sei. As razões são agora, há distância de anos, tão inócuas e fúteis. Também nunca souberam porque é que nos falávamos, porque é que ficámos tão amigos em tão pouco tempo. Bem, porque o mundo é a casa do amor e da morte... *Post que talvez, quase de certeza, será aumentado, corrigido, etc. pois foi escrito à pressa, a pedido de uma das pessoas de que se fala. Porque, diz, nunca compreendeu... E eu não lhe vou explicar, pelo menos de modo muito explícito. O que aconteceu nos dias anteriores e posteriores a esse 22 de Maio continuará guardado no sótão dessa casa do amor e da morte...

o amor é um cão do inferno - um ano

cerberus hell dog cão do inferno three heads três cabeças depois de ler a imortal literatura do mundo as crianças nas escolas fecham ferozmente os seus pesados livros e correm sempre contentes para o pátio ou ainda mais alarmante – para as suas horríveis casas. não há nada mais deprimente do que a imortalidade. CHARLES BUKOWSKI (tradução de manuel a. domingos) Imagem: Cerberus, o cão do inferno. retirada daqui.

quinta-feira, 20 de março de 2008

OS PECADOS DA IGREJA*

Por que razões, nada espero da Igreja, principalmente tendo à sua cabeça o actual Papa, Bento XVI: Porque ataca a eutanásia e defende o valor do sofrimento; Por considerar o aborto como um homicídio, em todos os casos; Por tornar o divórcio deveras difícil, convertendo a vida de um casal num inferno para eles e para os seus filhos, e provocando a violência doméstica; Por impedir outros tipos de matrimónios ou uniões, que em nada prejudicam nem atacam o matrimónio tradicional; Por não tolerar a homossexualidade, considerando-a um desvio moral, uma doença ou um pecado; Por querer ensinar a religião duma forma obrigatória a todos, em vez de a reservar ao âmbito familiar ou à comunidade crente; Por não respeitar o laicismo, que é o estado primitivo do individuo; Por se opor à utilização da célula-mãe, que tantas vidas poderia salvar; Por continuar a baptizar as crianças, seres inconscientes do acto que recebem; Por converter a comunhão das crianças num acto de ostentação e riqueza, contrariando a vida pobre de Jesus; Por calar os seus membros, nas festas das aldeias, quando por motivos de honrar santos e virgens, se torturam animais indefesos e inocentes; Porque rejeita o preservativo, elemento indispensável para fazer diminuir a Sida; Por acumular riquezas no Vaticano e em grande parte dos seus templos, quando Jesus disse que Ele não tinha sequer onde deitar a cabeça; Porque toda a hierarquia da Igreja, a partir da sua cúpula, deseja o poder, quando o Mestre veio para servir e não para ser servido; Por rejeitar a pílula, meio eficaz para exercer uma paternidade responsável; Por ser a Igreja apenas uma “repartidora” de sacramentos, em vez de ser a transmissora da Boa Nova; Por impor o celibato a todos os sacerdotes, sabendo que isso não era a regra na Igreja primitiva; Por ter convertido a Igreja numa burocracia descomunal, longe da simplicidade praticada pelos primeiros cristãos; *Texto elaborado por um sacerdote de Valência – Espanha, e publicado na revista Zero (via Why Not Now - sorry Dejanito, mas tinha que copiar!)

A FENIX RENASCIDA OU OBRAS POETICAS DOS MELHORES ENGENHOS PORTUGUZES [SIC]

A propósito do post anterior, e de um e-mail que me foi enviado perguntando pela obra Fénix Renascida, informo que a obra citada foi coleccionada e publicada entre 1716 (Tomo I) e 1728 (Tomo V) por Mathias Pereira da Sylva. Reúne poetas como Francisco Rodrigues Lobo, António Barbosa Bacelar, Manoel de Azevedo Pereira, Jeronymo Bahia, Thomas de Noronha, etc. Pode ser consultada digitalmente na Biblioteca Nacional.

segunda-feira, 17 de março de 2008

DEFINIÇÃO DO AMOR

É um nada Amor que pode tudo,
É um não se entender o avisado,
É um querer ser livre e estar atado,
É um julgar o parvo por sisudo;

É um parar os golpes sem escudo,
É um cuidar que é e estar trocado,
É um viver alegre e enfadado,
É um não poder falar e não ser mudo;

É um engano claro e mui escuro,
É um não enxergar e estar vendo,
É um julgar por brando ao mais duro;

É um não querer dizer e estar dizendo,
É um no mor perigo estar seguro,
É, por fim, um não sei quê, que não entendo.


Autor Anónimo do século XVII, in Fénix Renascida.

sexta-feira, 14 de março de 2008

El Coronel no Tiene Quien le Escriba

O coronel destapou a caixa do café e verificou que não havia mais que uma colherinha. Tirou a panela do fogão, despejou metade da água no chão de terra, e com uma faca raspou o interior da caixa para dentro da panela até se soltarem as últimas raspas de pó de café misturadas com ferrugem da lata. Ao esperar que fervesse a infusão, sentado junto do fogareiro de barro numa atitude de confiada e inocente expectativa, o coronel teve a sensação de que lhe nasciam fungos e lírios venenosos nas tripas. Era Outubro. Uma manhã difícil de suportar, mesmo para um homem como ele que já sobrevivera a tantas manhãs como esta. Durante cinquenta e seis anos - desde que terminou a última guerra civil - o coronel não fizera outra coisa senão esperar. Outubro era uma das poucas coisas que chegavam.
Gabriel García Márquez, In. Ninguém Escreve ao Coronel * Primeiros dois parágrafos da pequena (em número de páginas) obra de Gabriel García Márquez. Obra publicada em 1961, seis anos antes de Cem Anos de Solidão.

segunda-feira, 10 de março de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #67

Do nosso passado restam
apenas algumas lembranças
guardadas em caixas, baús,
memórias há muito esquecidas,
palavras já sem significado
como o retrato de um antepassado
desconhecido, que nos olha
da parede, na casa da província
onde, de quando em quando,
reencontramos familiares e alguns
amigos de outros tempos,
da infância ou da juventude,
que foram ficando, sempre
com vontade de partir. Também
as memórias do nosso passado
são assim: momentos que quisemos
esquecer, mas foram ficando.
E nós, de tempos a tempos,
deparamo-nos com elas,
entristecemos alguns instantes,
pensamos nostálgicos num passado
e num futuro, que abandonámos.


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Nós, os fracos, por razões óbvias, não somos falhados.*

É como se nós, os falhados, andássemos num sub-mundo subterrâneo, frio, escuro e bolorento preocupados com pequenas merdinhas ("era porreiro que o dinheiro durasse até ao fim do mês...") enquanto que, lá em cima, os outros se passeiam alegremente alheios às miséria subterrâneas. É que o chão que nos divide é um espelho unidireccional: os de baixo conseguem ver os de cima mas os de cima só se conseguem ver a si próprios.
Antigamente andava preocupado com esse povo subterrâneo mas por estes dias, se me visse à superfície, passava a vida a olhar para baixo com um sorriso filho da puta, certo que alguém, naquele preciso momento olhava para cima com inveja. [MDA, inblog Thunder Road]
*de um post no mesmo blog [aqui].

domingo, 9 de março de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #66

Há anos que vive no limite das suas forças, amparado por esperanças estéreis, alentado por vãs conquistas. Só o sonho não chega p'ra viver, pensa. Muitas vezes quis morrer não o querendo. Tudo me acontece, mas nada de bom, lamenta. Falhado nos estudos, no trabalho, e no amor. Nem a ilusão do dinheiro, para continuar a viver, cogita. Com menos de cem euros na algibeira, depende da boa vontade, da comida e, porque não dizê-lo, e principalmente da pena de familiares e amigos. Que motivos me restam?, questiona-se, nunca quis, tão pouco, matar-me, como hoje, mas nunca como hoje andei tão perto de o fazer. A vida assim é menos que vida. Derrotado por dentro, desmotivado, numa palavra: morto. No entanto continua, sem saber até onde, até quando... Também, ninguém sabe!, diz para si mesmo, olhando-se ao espelho.
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terça-feira, 4 de março de 2008

AVISO À NAVEGAÇÃO

Lamentavelmente fiquei sem computador; flipou sem hipótese de salvação; pelo que nos próximos dias, até adquirir um novo, estarei sem internet e, portanto, sem acesso ao blog. A não ser que publique algum post num cibercafé ou no pc de algum amigo, este blog estará parado entretanto. Aproveitem para rever post antigos; e desculpem pelos comentários que não venham a ter resposta nos próximos dias...

segunda-feira, 3 de março de 2008

conversa no msn (3)*

(...) pessoa 1: acreditas nos sonhos?... sonhei que não te andavas a sentir bem... porque é que não te andas a sentir bem? queres falar?
pessoa 2: quem te disse que não me ando a sentir bem?... não, não acredito nos sonhos! pelo menos como oráculo; os sonhos não nos dizem nada a que não pudéssemos chegar através de raciocínios despertos; muitas vezes nós é que andamos demasiado ocupados ou distraídos para nos apercebermos do evidente... os sonhos são apenas raciocínios que o cérebro faz à nossa revelia.  
pessoa 1: ninguém me disse nada... não sei explicar, mas sinto que não estás bem...  
pessoa 2: mas eu nunca disse que estava bem...  
pessoa 1: os meus sonhos mostram-me muita coisa, que por vezes acontece ou é um sinal... há sonhos que se têm que não têm sentido nenhum... outros que têm muitos significados.  
pessoa 2: todos os sonhos têm sentido! há sonhos a que consegues atribuir uma causa, um significado, etc... e há outros que não...  
pessoa 1: mas diz-me, como te sentes?  
pessoa 2: sento-me em frente do computador, mando bitaites no msn e no blog, desligo o computador e vou ao café. compro um maço de tabaco se os cigarros acabaram, tomo um café, volto para casa, sento-me em frente do computador... como vês, na rotina não há espaço para sentir... não sinto nada, nem se passa nada, nem há nada que não seja igual àquilo que sempre foi...
pessoa 1: eu não acredito nisso... tu és sempre tão misterioso... sei que se passa alguma coisa...  
pessoa 2: sentir é demasiado pesado para a minha alma... se eu sentisse sentiria demasiado, pelo que não aguentaria tanto sentir... então, para me precaver, não sinto, alheio-me das coisas...
pessoa 1: eu apenas te quero ajudar... a teu passado deve ter sido bastante complicado... deves ter passado por muito...  
pessoa 2: a minha vida não tem nada para saber, não há mistério nenhum... as pessoas é que pensam que a vida dos outros têm acontecimentos extraordinários (não necessariamente bons)... a minha vida é tão ordinária como outra qualquer... eu próprio sou um ordinarão!
pessoa 1: se a tua vida não tem mistério porque é que não me contas quem é a pessoa que tanto odeias, ou porque é que a tua alma é tão pesada? eu sei que isso é a tua vida e que tens todo o direito de não dizeres... mas dizeres que tu não és mesterioso!... é estranho...  
pessoa 2: a pessoa que eu tanto odeio é a pessoa que eu mais amo; odeio-a por a amar tanto; e amo-a por a odiar tanto; e vice-versa... por mais que te diga, ficarás sempre a saber o mesmo... e essa pessoa odeia-me por me amar tanto; e ama-me por me odiar tanto; e vice-versa... isto não é misterioso... é a vida, no seu caos e esplendor! (...)

 *conversa no msn anterior.

MINGUANTE - DESEMPREGO

revista online minguante literatura desemprego
O número 9 da revista minguante é dedicado ao tema do desemprego. Clique no link ou na imagem para folhear virtualmente a revista. Já agora, aproveite e leia o e-book O Executivo de Paulo Rodrigues Ferreira.

rascunho encontrado num caderno abandonado #65

Isso dos sonhos é como o horóscopo; podem querer dizer tudo, ou não dizer nada. Por exemplo, todas as pessoas querem dizer qualquer coisa, todas as pessoas precisam de falar, todas as pessoas deixam coisas por dizer, etc... Não ando bem há muitos anos (de facto, não posso dizer com certeza que alguma vez estive bem) - mas quem é que anda bem?! A vida não foi feita para andarmos bem. Foi feita para andarmos. Depois há os Happy Few que ocasionalmente andam bem, e os outros todos que ocasionalmente não andam mal...
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domingo, 2 de março de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #64

Como é que uma pessoa pode viver neste mundo sem possuir adequados mecanismos de coping?! Até aonde bastará a risiliência* para sobreviver...?!
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REAL / VIRTUAL*

Entrei apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, porque queria aproveitar os poucos minutos que dispunha naquele dia, para comer e acertar alguns bugs de programação num sistema que estava a desenvolver, além de planear a minha viagem de férias, coisa que há tempos que não sei o que são. Pedi um filete de salmão com alcaparras em manteiga, uma salada e um sumo de laranja, afinal de contas fome é fome, mas regime é regime não é? Abri o meu portátil e apanhei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim: - Senhor, não tem umas moedinhas? - Não tenho, menino. - Só uma moedinha para comprar um pão. - Está bem, eu compro um. Para variar, a minha caixa de entrada está cheia de e-mail. Fico distraído a ver poesias, as formatações lindas, rindo com as piadas malucas. Ah! Essa música leva-me até Londres e às boas lembranças de tempos áureos. - Senhor, peça para colocar margarina e queijo. Percebo nessa altura que o menino tinha ficado ali. - Ok. Vou pedir, mas depois deixas-me trabalhar, estou muito ocupado, está bem? Chega a minha refeição e com ela o meu mal-estar. Faço o pedido do menino, e o empregado pergunta-me se quero que mande o menino ir embora. O peso na consciência, impedem-me de o dizer. Digo que está tudo bem. Deixe-o ficar. Que traga o pão e, mais uma refeição decente para ele. Então sentou-se à minha frente e perguntou: - Senhor o que está fazer? - Estou a ler uns e-mails. - O que são e-mails? - São mensagens electrónicas mandadas por pessoas via Internet. Sabia que ele não ia entender nada, mas, a título de livrar-me de questionários desses: - É como se fosse uma carta, só que via Internet. - Senhor você tem Internet? - Tenho sim, essencial no mundo de hoje. - O que é Internet? - É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem de tudo no mundo virtual. - E o que é virtual? Resolvo dar uma explicação simplificada, sabendo com certeza que ele pouco vai entender e deixar-me-ia almoçar, sem culpas. - Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos tocar, apanhar, pegar... é lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos as nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse. - Que bom isso. Gostei! - Menino, entendeste o significado da palavra virtual? - Sim, também vivo neste mundo virtual. - Tens computador?! - Exclamo eu! - Não, mas o meu mundo também é vivido dessa maneira...Virtual. - A minha mãe fica todo dia fora, chega muito tarde, quase não a vejo, enquanto eu fico a cuidar do meu irmão pequeno que vive a chorar de fome e eu dou-lhe água para ele pensar que é sopa, a minha irmã mais velha sai todo dia também, diz que vai vender o corpo, mas não entendo, porque ela volta sempre com o corpo, o meu pai está na cadeia há muito tempo, mas imagino sempre a nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos de natal e eu a estudar na escola para vir a ser um médico um dia. Isto é virtual não é senhor??? Fechei o portátil, mas não fui a tempo de impedir que as lágrimas caíssem sobre o teclado.Esperei que o menino acabasse de literalmente "devorar" o prato dele, paguei, e dei-lhe o troco, que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que já recebi na vida e com um "Brigado senhor, você é muito simpático!". Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel nos rodeiade verdade e fazemos de conta que não percebemos!
*Post roubado ao meu amigo António Costa. Não sei de onde veio a história, se é verídica ou fictícia - em qualquer caso é verdadeira.

SPORTING vs. BENFICA

Temos houve em que este era um dia de emoções indescritíveis; em que um golo era a diferença abismal entre gritos eufóricos ou lágrimas depressivas - quando o golo, dependendo da baliza onde entrava, era a diferença entre ganhar ou perder o campeonato, podia acontecer o contrário: ser a diferença entre eufóricas lágrimas ou gritos depressivos - gemidos de dor, entenda-se. Hoje, quase catorze anos depois da última vez (2005 não conta) um amiguinho meu faz catorze anos. Ele nunca viu o Benfica que durante anos eu acreditei que pudesse existir. Ao menos ele não tem a ilusão que logo me fará dar saltos estéricos ou enterrar-me na cadeira com a cabeça entre as mãos. Ele não entende estas neuroses. Eu também não. Mas as ilusões são mesmo assim. Parabéns Miguel José!

sábado, 1 de março de 2008

BERNARDO SOARES!

Desde o dia em que iniciei este blog (muitos outros fui tendo desde 2003, julgo, ou 2002?, já não sei ao certo) que disse a mim mesmo que não podia publicar nenhum post com citações de Bernardo Soares porque, caso contrário, acabaria por passar os dias a copiar o Livro do Desassossego. Num velho teste de Introdução à Filosofia havia a clássica pergunta, Se fosses para uma ilha deserta...? Levava apenas o Livro do Desassossego! Há nele a vida toda e não há nada. Já não sei o que respondi no maldito teste, sei a nota - que não foi nada má, mas não interessa para aqui. Hoje diria que levava o Livro do Desassossego. Despedir-me-ia primeiro das pessoas; depois dos meus livros: um por um até restarem apenas os do Fernando Pessoa (cerca de 70 - de ou sobre). E no fim, apenas a Poesia do Álvaro de Campos e o Livro do Desassossego... Permitir-me-iam ler uma última vez a Poesia do Álvaro? A que propósito me fui lembrar disto? Estava para aqui a arrumar uns papéis e encontrei o teste no meio - não sei como lá foi parar... Está um magricelas a abanar a mão como se desse um passou-bem, com longas barbas e comprido cabelo, descalço e miseravelmente vestido. Diz: Ainda bem que chegou o senhor, porque eu aqui sozinho já começava a ficar maluco! Uma página ao acaso:
Minha alma está hoje triste até ao corpo. Todo eu me doo, memória, olhos e braços. Há como que um reumatismo em tudo quanto sou. Não me influi no ser a clareza límpida do dia, céu de grande azul puro, maré alta parada de luz difusa. Não me abranda nada o leve sopro fresco, outonal como se o estio não esquecesse, com que o ar tem personalidade. Nada me é nada. Estou triste, mas não com uma tristeza definida, nem sequer com uma tristeza indefinida. Estou triste ali fora, na rua juncada de caixotes.
Bernardo Soares faz da solidão desassossego. O que é estático, inflexível, rígido - é dinâmico nas palavras de Soares. Um levre sopro denuncia uma tempestade possível. A possibilidade de existir é já existir. Bernardo é antes de ser, na possibilidade de existir. Haverá outra obra na Literatura em que a solidão não conduza inevitavelmente à loucura?

PROIBIDO FUMAR

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Cosimo*

Conheci Italo Calvino em finais de 1999, através do romance O Barão Trepador, 2.º volume da trilogia Os Nossos Antepassados, que se inicia n' O Visconde Cortado ao Meio e termina com O Cavaleiro Inexistente. Depois disso, já li muitos dos romances de Calvino. Mas ao fim destes anos todos, uma frase apenas me ficou na memória; uma frase que me causa arrepios cada vez que me recordo dela. Calvino é muito mais que uma frase. *Cosimo é o barão trepador que um dia sobe para uma árvore (não me perguntem qual, é capaz de estar escrito no livro), e vai de copa em copa... Ainda quando pareça muito breve, uma viagem pode para sempre permanecer sem regresso. Foi o pai de Cosimo que a proferiu. O irmão mais novo é o narrador. Pormenores que pouco importam. Italo Calvino é um dos escritores do meu panteão. Um dia destes publico o post respectivo. Se tivesse escrito apenas esta frase, seria ainda assim um enorme escritor, para mim: cada vez que a lembro, sinto um arrepio. E penso que decima das árvores mijaria para mais longe. Mas eu não sou como o Cosimo. Eu sou como o irmão mais novo, que ficou. Post dedicado ao António Costa e ao #$%&?=" a quem chamarei para sempre melhor amigo, porque esta frase faz-me lembrar sempre dele, e hoje o António Costa fez-me lembrar esta frase.