sábado, 4 de outubro de 2008

noite

A noite,
- Como ela vinha!
Morna, suave,
Muito branca, aos tropeções,
Já sobre as coisas descia,
E eu nos teus braços deitado
Até sonhei que morria

E via -
Goivos e cravos aos molhos;

Um Cristo crucificado;
Nos teus olhos,

Suavidade e frieza;
Damasco roxo puído,
Mãos esquálidas rasgando
Os bordões de uma guitarra.
Penumbra, velas ardendo,
Incenso, oiro - tristeza!...
E eu, devagar, morrendo...

O teu rosto moreninho
 - Tão formoso!
Mostrava-se mais sereno,
E sem lágrimas, enxuto;
Só o teu corpo delgado,
O teu corpo gracioso,
Se envolvia todo em luto.

Depois, ansiosamente,
Procurei a tua boca,
A tua boca sadia;
Beijámo-nos doidamente...
- Era dia!

E os nossos corpos unidos
Como corpos sem sentidos,
No chão rolaram, e assim ficaram!

Pintura de Eric Fischl,
Poema de António Botto.

2 comentários:

  1. Obrigado, André, por mais uma vez recordares António Botto; é sempre um imenso prazer relê-lo.
    Abraço.

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  2. É que - finalmente - encontrei o meu exemplar de "Canções"... Abraço.

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