quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Estava o quinto dia a acabar, mas Deus sentia aquele impulso criador mais activo que nunca. Cirandava nervosamente por entre a verdura pensando em soluções para o seu problema, mas não havia maneira de acabar com aquela tentação. Quanto mais reprimia aquele impulso, mais envenenado ficava o seu espírito, pese a redundância. Os seres ainda não eram tão inúmeros como ele queria que fossem! Obrigou-os então a multiplicarem-se: – Crescei e multiplicai-vos e enchei as águas do mar e multipliquem-se as aves sobre a terra! – Disse num brado histérico. Apesar de já ter criado o outro lado da terra, estava tão aborrecido que se foi deitar. Terminara o quinto dia. «Amanhã já é sábado – pensou para si mesmo – que porcaria! A semana quase a acabar e eu ainda não fiz nada daquilo que imaginei!» – Por entre o caos do seu pensamento disperso, lembrou-se então que ainda não tinha inventado a semana, nem os dias, nem o tempo, sequer. Aliviado, adormeceu. No dia seguinte não seria sábado, seria o sexto dia. Mas quando despertou ao sexto dia, estava rejuvenescido. Começou por criar os animais domesticáveis. Olhou para eles e viu que eram bons. Está um lindo dia, pensou. Estava tão feliz que começou a caminhar distraidamente por entre a verdura. Ia a passar junto da macieira quando ela, juntando todas as forças que ainda lhe restavam nas raízes, as mexeu até se elevarem para fora da terra. Foi o suficiente para que Deus tropeçasse. Estatelou-se junto ao tronco da macieira, que estremeceu de gozo. Deus, enfurecido, criou os répteis, e entre eles a serpente, para vigiar a macieira. Não se saberá nunca, mas talvez por isso, criou também os animais ferozes, segundo as suas espécies, que as espécies são a única coisa no universo a quem Deus presta contas, e por isso permanece um mistério a sua origem, embora Darwin a venha a explicar um dia. Estava o sexto dia a acabar, e Deus cada vez mais enfurecido. Havia algo no seu espírito que o andava a incomodar; visto não conseguir discernir sobre o que seria, atribuía aquela sensação, que ele definia como uma falta, um vazio que havia em si, à vontade de criar. Contudo não tinha imaginação para mais nada, e o dia estava a acabar. Já não sabia o que fazer. Estava desesperado. Podia parar o tempo, pensou. Ele tinha poder para o fazer. Mas abanou a cabeça em sinal de reprovação. Como havia de parar algo que ainda não inventara? Deitou-se sobre a terra, olhando o luzeiro maior que ia desaparecendo, e já o menor se insinuava, quando Deus se lembrou que tinha criado o outro lado da terra, e que lá era dia. Foi assim que o sexto dia se prolongou por mais um dia! Ao chegar ao outro lado da terra, Deus viu que a terra outrora informe e vazia era agora um lugar caótico e barulhento. Por momentos teve a tentação de destruir tudo e recomeçar.

Fabrízio Tommasini (outros excertos aqui, aqui, e aqui).

2 comentários:

  1. Porra pá! Já te disse para não pores aqui mais passagens deste livro!

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  2. É vero! Mas que queres? É para ver se estimulo o Tommasini a escrever as 800 páginas que lhe faltam! O gajo é preguiçoso...

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