quinta-feira, 3 de julho de 2008

POR FALAR EM MANUELA FERREIRA LEITE, OU N'OUTRA COISA QUALQUER...*

E quanto a ti, Morte, e a ti, amargo abraço da mortalidade, é inútil tentarem alarmar-me.

O parteiro acorre ao seu trabalho sem demora,
Vejo a mão pressionando, recebendo, sustendo,
Reclino-me nos umbrais das delicadas portas flexíveis,
E observo a saída, e observo o alívio e a libertação.

E quanto a ti, Cadáver, penso que és bom adubo mas isso não me ofende,
Aspiro o doce perfume das rosas brancas crescendo,
Toco as folhas como lábios, toco o peito lustroso dos melões.

E quanto a ti, Vida, reconheço que és o resíduo de muitas mortes,
(Não duvido que eu próprio já morri dez mil vezes).

Escuto o vosso murmúrio, oh estrelas do Céu,
Oh sóis, oh erva dos túmulos, oh perpétuas transferências e promoções,
Se não dizeis nada que poderei eu dizer?

Do turvo charco na floresta do Outono,
Da lua que desce os precipícios do crepúsculo sussurante,
Caí, centelhas do dia e do acaso, caí sobre as hastes negras que apodrecem no estrume,
Caí sobre o lamento incoerente dos ossos secos.

Levanto-me da lua, levanto-me da noite,
Percebo que a luz débil é o reflexo do meio-dia,
E desemboco no que é firme e central desde o rebento grande ou pequeno.


Walt Whitman (Song of Myself, tradução de José Agostinho Baptista).

2 comentários:

  1. "Portugal estava à beira do abismo. Agora deu um grande passo em frente!" - Também diz tudo, não diz?!... Abraço,

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