sexta-feira, 25 de julho de 2008

PIRATA*


Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


Sophia de Mello Breyner Andresen, na antologia Mar (Caminho, 6.ª edição, Janeiro de 2006, p.47)
*O título "Pirata" é da autora.

Imagem daqui.

2 comentários:

  1. Eu ando com piratas cá por Sintra mas são muito fraquinhos.
    Um abraço.

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  2. já não há piratas como antigamente! e aqueles que há, são piratas cibernéticos... ninguém lhes põe os olhos em cima ;-) Abraço.

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