quarta-feira, 16 de julho de 2008

DEPOIS NÃO DIGAM QUE EU NÃO AVISEI...*

É este o perigo, creio eu, quando se faz um diário: exagera-se tudo, espia-se de mais, excede-se constantemente a verdade. (*1)





Cada dia é apenas mais um dia. Que posso esperar da vida, se tudo o que amava foi perdido? Tenho vivido agarrado à esperança de que um dia melhor virá; apenas na esperança de um pequeno bafejo de felicidade... Os dias são, porém, cada vez mais vazios: reflexos da minha alma - ou a minha alma reflexo deles - ou reflexos uns dos outros - sem, contudo, saber quem reflecte e quem é reflectido... (*2)

Um gesto, um acontecimento no pequeno mundo colorido dos homens nunca é absurdo senão relativamente: em relação às circunstâncias que o acompanham. As palavras dum doido, por exemplo, são absurdas em relação à situação em que ele se encontra, mas não em relação ao seu delírio. (*3)


*Não (me) levem demasiado a sério; afinal um blog não passa disso mesmo, de um registo diário. De qualquer modo, obrigado às duas pessoas que me enviaram preocupados e-mails... Ou como diz o Miguel de Cervantes Saavedra: "Não há memória que o tempo não acabe, nem dor que a morte não consuma..." (li há muitos anos O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, não posso pronunciar-me quanto à autoria da sentença... confio, no entanto, na Miss Allen).

*1 e *3 - Jean-Paul Sartre, in A Náusea.

*2 - Retirado da entrada de 13 de Maio de 19** de um diário roubado a um amigo morto.

Imagem vista no blog Reticências Poéticas.

2 comentários:

  1. Concordo e discordo com o Miguel de Cervantes Saavedra...há memórias e dores que só acabam quando a morte nos consome.
    Parabéns pelo blog.

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  2. Olá soflor, bem-vinda a este pequeno canteiro! De facto, estou contigo: há memórias (e dores) que só a morte consome... Mas a frase é linda, daquelas frases elípticas, redondas, que dizem tudo sem nada dizerem... um beijinho, e outro de boas-vindas. André.

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