terça-feira, 15 de julho de 2008

BACO (Deus versus Demónio)



Embevecido, aniquilo de um trago só o chamamento que me conduz à ruína, e, sincronicamente, absorvo a névoa que me enche o peito e me relaxa a alma desmesuradamente, incontrolado por uma vontade enraivecida, chamo e verto por mim os demónios que me raiam os olhos e me obrigam a afugenta-los por cada poro do corpo, criando um espelho disforme entre o que sou e a nova realidade à qual me entrego. Nesta nova realidade, anseio desmedidamente repartir-me em mil pedaços, tal qual um puzzle, e recomeçar, juntando de novo todos esses fragmentos de modo a conseguir consolidar a minha existência. E, nesta nova natureza, neste novo espírito, liberto-me de todas as atribulações que me atormentam, e ofereço a mim mesmo uma tábua rasa para que os cinco sentidos se reúnam veemente e absorvam tudo o que consigam para a poder preencher.
Tudo o que me abarca é analisado meticulosamente, e filtrado, de forma a recolher sinteticamente apenas o indispensável. Enfim, já vencido pelos demónios que não consegui escorraçar, e com a alma aflita, em completo alvoroço, deposito a minha tábua, agora cheia, junto de todo o meu passado e arrasto de forma moribunda o que resta do meu cadáver, reconfortando-me assim no meu leito, fazendo pesagens na balança da consciência e intrigando-me com um “anjo” que me tenta seduzir a uma paz de espírito e um futuro descoincidente.
Trëk

Imagem da esquerda: Bachus et Ariane (fonte); imagem da direita: Grande Baco, de Caravaggio; texto: o meu amigo Trëk

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