terça-feira, 13 de maio de 2008

UM AMIGO*

Há alguns anos sentara-me na esplanada de um café, com amigos franceses que passavam férias na terra de onde parte da sua família partira longos anos antes, e com a minha irmã. Era uma quente noite de Verão, daquelas em que aspiramos por uma piscina e se sente o cheiro seco da tórrida terra e da vegetação chamuscada pelos implacáveis raios de sol. Uma noite como outra qualquer. Acabáramos de chegar ao café, e em torno da mesa quadrada nos dispuséramos; todos os lados estavam assim ocupados, como se disséssemos a todos em volta «este é o nosso círculo, não queremos aqui mais ninguém». Fizemos o pedido, quatro bebidas - Coca-Colas? - talvez um Ice Tea também - que era o que a minha irmã costumava pedir. O rapazinho, filho dos donos do café, entrou aborrecido para dentro do estabelecimento, afastando as fitas de metal, e voltou momento depois, trazendo o que lhe pedíramos. Perguntei-lhe «quanto é?» Ele olhou-me, sem responder, angustiado. «Que tens?» perguntei-lhe. «Nada» respondeu. Mas enquanto me dizia «nada» os ombros encolheram-se. Quantas vezes as expressões e atitudes corporais dizem mais que as palavras? Mas eu ainda não compreendera. Quão insensíveis somos por vezes! Perguntei-lhe se também queria beber alguma coisa. Ele não respondeu; e depois de eu insistir lá abanou a cabeça em sinal de reprovação - dizia que não, ou reprovava a minha falta de tacto? Eu pousara a nota com que tencionava pagar sobre a mesa. Ele pegou nela e baixou-se, para me poder falar ao ouvido. «Eu não quero que me pagues nada, só quero que sejas meu amigo!» E desapareceu. Quando momentos depois voltou, com o troco e uma bebida para si mesmo, eu já percebera. Afastei-me e ele puxou uma cadeira, para se sentar a meu lado, no «nosso» circulo de amigos. Desde esse dia que trago esta frase encravada na garganta; talvez ele já não se recorde; provavelmente ele não sabe, mas - foi nesse instante que o chamei «amigo» pela primeira vez, sem no entanto dizer nenhuma palavra; a maioria das pessoas que me conhece talvez não compreenda porque é que trato um miúdo - agora adolescente - como um igual, afinal sou muito mais velho. Para mim é um dos mais valiosos amigos que encontrei na vida. Talvez o futuro nos separe, nos afaste, a vida nos conduza por caminhos muito distantes; mas no meu pensamento estará para sempre o seu sorriso; e quando me sentir só, hei-de lembrar-me que ele existe, e vou sorrir também.
*Desculpem lá este momento piegas, mas às vezes dá-me para isto; para me meter a pensar naquilo de bom que torna esta vida miserável numa coisa preciosa. Muitas pessoas que me conhecem «pessoalmente» saberão de imediato que ele é.

6 comentários:

  1. São situações como estas que fazem que a Amizade seja a coisa mais bela do mundo.
    Abraço para ti e para ele.

    ResponderEliminar
  2. Que bom é ter estes momentos piegas que de "piegas" não têm nada.
    Para mim são momentos de partilha sinónimo "crescimento" interior.

    ResponderEliminar
  3. Esta linda história não tem nada de piegas., a amizade nunca pode ser piegas.
    Um abraço.

    ResponderEliminar
  4. olá pinguim, a amizade é mesmo uma coisa muito bela. e eu adoro o meu "afilhado adoptivo" como lhe chamo. Abraço.

    ResponderEliminar
  5. olá tongzhi; acho que são estes momentos que nos permitem vislumbrar a felicidade; ainda que apenas umas gotas, são estas pequenas gotas que saciam a nossa sede e nos permitem ter alguma alegria e esperança nesta vã existência... Abraço

    ResponderEliminar
  6. olá special k, às vezes sou, sim, um pouco piegas - mas disfarço he he... Abraço.

    ResponderEliminar

Deixe o seu comentário. Tentarei responder a todos. Obrigado