sábado, 10 de maio de 2008

A PRIMEIRA PAIXÃO ADOLESCENTE NÃO É DE AMOR POR UMA PESSOA, MAS SIM DE ÓDIO A TODAS AS PESSOAS*

Törless sentiu o corpo todo oprimido por um pensamento: os adultos também serão assim? O mundo será assim? Será lei geral que exista em nós algo mais forte, mais belo, maior, mais apaixonado, mais sombrio do que nós mesmos? Algo sobre o qual exercemos tão pouco poder? Podemos apenas espalhar milhares de sementes, sem objectivo, até que uma delas repentinamente floresça como uma flama escura, crescendo muito acima de nós?... E em cada nervo do seu corpo tremia em resposta um impaciente «sim». (...) Törless abriu a porta e entraram. Ficou de costas para Basini e acendeu o pequeno lampião. Quando se voltou, Basini estava nu diante dele. Törless recuou um passo involuntariamente. A súbita visão do corpo nu, branco como neve, atrás do qual o vermelho das paredes parecia sangue, deixava-o ofuscado e perplexo. Basini tinha um belo corpo - quase sem nenhum traço de virilidade, de uma magreza casta e esguia, como a de uma donzela. Törless sentia essa nudez incendiar os seus nervos como alvas labaredas ardentes. Não conseguia evitar o poder de tamanha beleza. Até esse momento, não soubera o que era belo. Pois o que era a arte para ele, apenas um jovem, e o que é que sabia dela? Até certa idade ela não passa de algo incompreensível e enfadonho para quem é criado ao ar livre! Ali, porém, a arte chegava pelos caminhos do sexo. Secreta e súbita. Um sopro cálido e perturbador desprendia-se daquela pele nua, aliciante, macia e plena de sensualidade. Vibrava nela também algo solene, quase sagrado. Passada a primeira surpresa, Törless envergonhou-se. Ele é um homem! Essa ideia indignava-o, embora sentisse que, com uma jovem, seria a mesma coisa. (...) Um pensamento - mesmo que tenha passado pela nossa mente há muito tempo - só viverá no instante em que alguma coisa, que já não é o pensar, que já não é a lógica, se acrescenta a ele, de modo que sentimos a sua verdade para além de qualquer justificação, como uma âncora que dilacera a carne viva e ensanguentada... Uma grande compreensão só se realiza pela metade no círculo de luz na nossa mente; a outra metade realiza-se no solo escuro do mais íntimo de nós e é, antes de mais nada, um estado de alma em cuja ponta extrema, como uma flor, pousa o pensamento.
*Robert Musil, in O Jovem Törless (agora traduzido por João Barrento, para as Publicações Dom Quixote, como As Perturbações do Pupilo Törless).

4 comentários:

  1. Há muitos, muitos anos li este livro e gostei muito, pois também era jovem e andava à procura de tanta coisa...
    Abraço.

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  2. A primeira paixão, as primeiras descobertas são coisas que nunca esquecemos.
    Um abraço.

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  3. Olá Pinguim, é um dos livros da minha vida - bem, qualquer livro, para um viciado em livros, corre esse risco... E o autor é um dos meus preferidos... Felizmente agora está, com décadas de atraso, em voga em Portugal... Ando a ler o volume 2 de "O Homem sem Qualidades", pois o primeiro teima em não chegar... A partir de agora passo a mandar vir tudo pela fnac.pt... Abraço

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  4. tens toda a razão, amigo special k, tens toda a razão... (não é uma constatação, é resignação ;-) Abraço

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