sábado, 1 de março de 2008

BERNARDO SOARES!

Desde o dia em que iniciei este blog (muitos outros fui tendo desde 2003, julgo, ou 2002?, já não sei ao certo) que disse a mim mesmo que não podia publicar nenhum post com citações de Bernardo Soares porque, caso contrário, acabaria por passar os dias a copiar o Livro do Desassossego. Num velho teste de Introdução à Filosofia havia a clássica pergunta, Se fosses para uma ilha deserta...? Levava apenas o Livro do Desassossego! Há nele a vida toda e não há nada. Já não sei o que respondi no maldito teste, sei a nota - que não foi nada má, mas não interessa para aqui. Hoje diria que levava o Livro do Desassossego. Despedir-me-ia primeiro das pessoas; depois dos meus livros: um por um até restarem apenas os do Fernando Pessoa (cerca de 70 - de ou sobre). E no fim, apenas a Poesia do Álvaro de Campos e o Livro do Desassossego... Permitir-me-iam ler uma última vez a Poesia do Álvaro? A que propósito me fui lembrar disto? Estava para aqui a arrumar uns papéis e encontrei o teste no meio - não sei como lá foi parar... Está um magricelas a abanar a mão como se desse um passou-bem, com longas barbas e comprido cabelo, descalço e miseravelmente vestido. Diz: Ainda bem que chegou o senhor, porque eu aqui sozinho já começava a ficar maluco! Uma página ao acaso:
Minha alma está hoje triste até ao corpo. Todo eu me doo, memória, olhos e braços. Há como que um reumatismo em tudo quanto sou. Não me influi no ser a clareza límpida do dia, céu de grande azul puro, maré alta parada de luz difusa. Não me abranda nada o leve sopro fresco, outonal como se o estio não esquecesse, com que o ar tem personalidade. Nada me é nada. Estou triste, mas não com uma tristeza definida, nem sequer com uma tristeza indefinida. Estou triste ali fora, na rua juncada de caixotes.
Bernardo Soares faz da solidão desassossego. O que é estático, inflexível, rígido - é dinâmico nas palavras de Soares. Um levre sopro denuncia uma tempestade possível. A possibilidade de existir é já existir. Bernardo é antes de ser, na possibilidade de existir. Haverá outra obra na Literatura em que a solidão não conduza inevitavelmente à loucura?

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