sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #61

É permitido fumar neste poema
Pedir ou oferecer palavras
Acendê-las ou apagá-las
Atirar com elas para o chão
Perfumar a atmosfera
Com o seu cheiro. Esquecê-las
Sobre uma mesa, uma parede
Um pedaço de papel amachucado.
Ávidos, chupá-las, aspirá-las,
Inspirá-las, sugá-las, expirá-las
Para o ar poluido da terra.
Podem fumá-las à vontade,
Não matam nem causam impotência.
Podem prender ou libertar,
Ferir ou curar. As palvras
Belas para uns, para outros feias
Ou apenas inúteis, as palvras
Não salvam os inocentes,
Não libertam dos carcereiros,
Nem acabam com os tiranos.
Tudo podem e nada conseguem,
Como um cigarro, acalmam.
Iluminam um instante, ficam
Como um fio de fumo cinzento
Na memória. E desvanecem-se.

A uns incomodam, fazem falta
A outros. Podem fumar à vontade
Neste poema. Não há ar puro
Na atmosfera onde se alimentaram
As árvores de onde vieram
As fibras deste papel. Aqui,
Como numa velha tabuleta
Abandonada, está escrita
Uma velha e inútil indicação

É permitido fumar sozinho,
Aos pares ou em lúbricas orgias,
Homens com mulheres, mulheres
Com mulheres, homens com homens,
Ou outras possíveis combinações,
Livres e de comum acordo.
Às palvras não se colocam restrições,
É permitido beijá-las em público,
Aqui nenhum amor é impúdico,
Os amantes podem expressar
O amor sem se envergonhar.


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9 comentários:

  1. Tu gostas é de fumar... confessa, vá... abraço.

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  2. Oh R. isso de usar o pseudónimo dos outros tem que acabar!... Um dia destes volto a criar um blog para publicar os meus versos, e logo vos mostro como é que se faz! deixem mas é de fumar!

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  3. Espectros de gente! Há quanto tempo não vos encontrava no mundo dos vivos! Mas o que é que andaram a fazer?! É só do tabaco, ou consumiram outras substâncias? Só cá falta o Teodoro, he he... Abraço para todos, e tu, Calado, vê lá se consegues fazer com que esse barco te traga até Portugal! Abraço.

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  4. olá a todos! quer dizer, não têm mais que fazer!? Calado, um grande abraço.

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  5. Uma metáfora que bem representa a inquietação social que se vive!! Beijo*

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  6. olá rita, só agora dei conta do teu comentário... olha, se se fumasse mais e se matasse menos, este mundo seria menos mau (era para dizer "seria bem melhor", mas reflecti, e este mundo nem sequer é bom, como poderia ser melhor?) beijinho.

    já agora, aproveito e vou fumar um cigarro! sim, porque eu se quisesse deixava de fumar! não preciso de nenhum estado-moral para me escrever nos maços que mata e outros lugares-comuns! qualquer dia tiram-nos o direito de morrer, por decreto, e depois eu quero ver como é que vai ser; talvez assim "No dia seguinte ninguém morreu."

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  7. Cai aqui por mero acaso... ou então não e está fabuloso... e só por acaso as tuas ultimas palavras fazem-me lembrar um qualquer livro de um qualquer nobel português da literatura que falava sobre a morte... :) quantos aos teus o titulo podia ser fabuloso destino de andre benjamim...

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  8. Bem-vindo Escritor. Obrigado pelo comentário, antes de mais. Do Nobel Português li todos os livros excepto o último, A Viagem do Elefante, e os romances Levantado do Chão, e A Vida de S. Francisco de Assis (julgo que é este o título, não tenho a certeza); também não conclui a leitura de História do Cerco de Lisboa... Na Verdade não gosto por aí além dos primeiros romances do Saramago. Quanto ao que referes, que julgo ser As Intermitências da Morte, é possível que sim, que tenhas razão, porém com tantos livros que já li, do Saramago e não só, é-me impossível saber... Abraço, e volta sempre. Eu vou espreitar os teus blogs...

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