domingo, 30 de dezembro de 2007

Redução*

Reducción**
Primero vivía en un enorme caserón… tan grande que pasaban semanas sin que visitara todas las habitaciones. Entonces era muy habladora, tanto, que a veces no había tiempo de contestarle. Luego se mudó a una casa pequeña que podía recorrer en una mañana; pero se volvió más callada, aunque se podía conversar con ella. Después, tuvo que vivir en un departamentito, y para ver que pasaba en la otra habitación, solamente tenía que mover el cuerpo; casi no hablaba. Un día no logró levantarse de la cama y sólo fue capaz de decir "no". Al final todo se había reducido.
**Virginia Bákula, psicóloga nascida em Quito, Ecuador, de nacionalidade peruana. Reside en Lima.
*Post publicado por e-mail... Provavelmente o último deste ano... Não tenho tido tempo - mentira! mentira! mentira! - não tenho tido vontade para publicar nada, nem para responder aos comentários, nem aos e-mails, nem nada... A todos/as as minhas desculpas, espero regressar em breve. Desejo a todos/as os/as meus/minhas amigos/as, leitores do blog, conhecidos - da vida real e da cibernética - um exclente ano novo; um dia após o outro, quero dizer!

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

how can i go on?

When all the salt is taken from the sea I stand dethroned, I'm naked and I bleed But when your finger points so savagely Is anybody there to believe in me To hear my plea and take care of me? How can I go on, from day to day Who can make me strong in every way Where can I be safe, where can I belong In this great big world of sadness How can I forget those beautiful dreams that we shared They're lost and they're nowhere to be found How can I go on? Sometimes I seem to tremble in the dark, I cannot see When people frighten me I try to hide myself so far from the crowd Is anybody there to comfort me Lord, take care of me How can I go on (how can I go on) From day to day (from day to day) Who can make me strong (who can make me strong) In every way (in every way) Where can f be safe (where can I be safe) Where can I belong (where can I belong) In this great big world of sadness (In this great big world of sadness) How can I forget (how can I forget) Those beautiful dreams that we shared (Those beautiful dreams that we shared) They're lost and they're nowhere to be found How can I go on? How can I go on? How can I go on? Go on, go on, go on *Letra de Mike Moran e Freddie Mercury

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

love kills*

Love don't give no compensation, love don't pay no bills Love don't give no indication, love just won't stand still Love kills, drills you through your heart Love kills, scars you from the start It's just a living pastime, ruining your heartline Stays for a lifetime, won't let you go Coz love (love) love (love) love won't leave you alone Love won't take no reservations, love is no square deal Hey love don't give no justification, it strikes like cold steel Love kills, drills you through your heart Love kills, scars you from the start It's just a living pastime, burning your lifeline Gives you a hard time won't let you go Coz love (love) love (love) love won't leave you alone Hey love can play with your emotions Open invitation to your heart Hey love kills Play with your emotions Open invitation to your heart (to your heart) Love kills (love kills), hey hey, love kills (love kills) Love kills kills kills kills Love can play with your emotions, open invitation Love kills, hey, drills you through your heart Love kills, scars you from the start It's just a living pastime, ruining your hearrline Won't let you go Love kills, hey, drills you through your heart Love kills, tears you right apart It won't let go, it won't let go Love kills, yeah *Letra de Giorgio Moroder e Freddie Mercury

domingo, 23 de dezembro de 2007

Ecos*

Con un pie en un lado y con el otro en otro, mi cuerpo trata de encontrar el equilibrio de la estrella que estampa la firma innumerable del asombro y las premoniciones. Hubo un día con plantas arrastradas, con ramas que me golpeaban las espaldas, con ruegos y riesgos y regadíos con canales al borde de un puñado de abejas. Hubo un día en el que la fotosíntesis se extendió hasta el final del semen y las velas. Las puertas se cerraban a las ocho y no volvían a abrirse hasta que el gallo cantaba tres veces. Luego vino ella y no la muerte, que todavía no me visitaría por lunas cuyo número aun desconocía -el abecedario, la tabla de multiplicar, los diez mandamientos que entonces aprendí por puro amor al prójimo y a pesar de las sotanas-- aunque de luna en luna, de sol a sol, podía oler sus rastros en cientos de puntos cardinales. Ella debía quererme y lo juró apenas comenzada. Ella debía nutrirme y en la cuchara encontré la miel más dulce. Ella debía jurarme y aceptó mi nombre hueco. Ella debía hacerse a un lado terminando de limpiarse la sangre que se hacía ya costra entre sus muslos. Ella debía respetar el deber y lo debido a las promesas, a las cinco de la tarde, a los taxistas. Vino ella y la vida y acaso la sospecha como un eclipse. Ella caminaba con el bulto en los brazos cuando llegaba la hora de la especie. Sus ojos se abrían ante el asombro de una edad donde la a había dejado ya de sonreírle. Ella sentía que la voz era su escudo y la botella navegando entre las Siete Maravillas. Su voz que además de su nombre propio presintió el mío, el del otro, el de la sospecha y de la luz perdida en la llegada, en el recodo, en el ombligo, a la hora de la hora de la madre de la noche y de la abuela.
*Eduardo Gargurevich - Escritor Perunano, nascido em 1959, em Lima. Actualmente reside nos Estados Unidos da América, onde ensina Literatura e Cultura da América Latina. Este poema é dedicado, pelo autor, a Arlene Pelayo.

a um secreto leitor*

Há alguns meses atrás, um/a secreto/a leitor/a nihilsibi - o profile não está disponível; portanto não sei se tem blog ou não; não tenho a ínfima ideia acerca de quem possa ser; o mais provável é que não nos conheçamos de lugar algum - deixou-me o poema que vou agora aqui publicar, de Miguel Torga - nos comentários deste post. Hoje fui dar com o poema; não fui o único que hoje foi dar com o poema. Há sempre a outra face da moeda. Quem é a outra face da moeda, isso pretendo eu saber, mas a pessoa não se confessa. É um/a secreto/a leitor/a.... O poema intitula-se "a um secreto leitor" e foi escrito em 1951.
No silêncio da noite é que eu te falo, Como através de um ralo De confissão Auscultadores pessoais e atentos, Os teus ouvidos são Ermos abertos para os meus tormentos. Sem saber o teu nome e sem te ver — Juiz que ninguém pode corromper —, Murmuro-te os meus versos, os pecados, Penitente e seguro De que serás um búzio do futuro, Se os poemas me forem perdoados.

sábado, 22 de dezembro de 2007

rascunho encontrado num caderno abandonado #57

De todos nós
De todos nós aquele
em quem depositávamos
esperanças que teria
mais que um nome cravado
numa lápide sombria
ou num livro do registo civil
arrumado numa prateleira.

De todos nós aquele
de quem esperávamos
que no futuro seria
o nosso brilho nos olhos
nas conversas de café
nos frios invernos
nos quentes fins
de tarde de verão
numa esplanada
ou junto ao balcão.
Na troca de palavras
com um empregado
um colega de trabalho
ou um de nós que viesse
visitar-nos num serão.

De todos nós que tantas
esperanças tínhamos
que tantos sonhos tanta
imaginação possuíamos
cravada em nós como
um corpo que viola
outro corpo à força
de nos agarrarmos à vida.

De todos nós, aquele
em quem confiámos
as nossas esperanças
acabou como todos nós.

Com um tiro de caçadeira
saindo furioso pela nuca.
Ao menos, de todos nós,
tu tiveste a coragem
necessária para admitir:
- Basta! Não irei a lado nenhum!

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Quando te Vais*

Quando te vais o vento rodopia para norte Os pintores trabalham todo o dia mas ao pôr-do-sol a tinta cai Deixando à vista as paredes enegrecidas O relógio retrocede até bater sempre a mesma hora Que não tem lugar nos anos. E à noite aconchegado na cama de cinzas Eu acordo ofegante É o momento em que as barbas dos mortos começam a crescer Lembro-me de que estou caindo Que so eu a razão disso E que as minhas palavras são as vestes do que jamais serei Como a manga dobrada de um rapaz com um só braço.
*Poema de William Stanley Merwin traduzido por Bernardo Pinto de Almeida. Artigo Wikipédia sobre o Poeta W. S. Merwin.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

o homem moderno*

Demora-se muito em Amsterdão? Linda cidade, não acha? Fascinante? Eis um adjectivo que não ouço há muito tempo. Precisamente desde que deixei Paris, já lá vão uns anos. Mas o coração tem a sua memória e eu nada esqueci da nossa bela capital, nem dos seus cais. Paris é uma autêntica ilusão de óptica, um imponente cenário habitado por quatro milhões de silhuetas. Perto de cinco milhões no último recenseamento? Está bem, devem ter feito meninos. Não me admiro. Sempre me pareceu que os nossos concidadãos tinham duas paixões violentas: as ideias e a fornicação. A torto e a direito, por assim dizer. De resto, evitemos condená-los; não são os únicos, e assim toda a Europa. Cismo, por vezes, no que dirão de nós os futuros historiadores. Bastar-lhes-á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Despois desta forte definição, o assunto ficará, se assim me posso exprimir, esgotado.
*Albert Camus, in A Queda (obra publicada em 1956). Post-Scriptum: Calhou a este post a contingência de ser o #888 a ser publicado neste blog. Número redondo e bonito.

escritores do meu panteão

Boris Vian Vernon Sullivan non-sense literatura fotografiaPergunta-me um leitor deste blog, por e-mail, a razão por que em todos os posts da série escritores do meu panteão o título escolhido para cada um dos posts é o título do livro de onde foi extraída uma pequena citação, excepto no caso do post sobre Boris Vian, em que a citação é de O Outono em Pequim e o título é Irei Cuspir-vos nos Túmulos. Caro leitor - e todos vós a quem esta dúvida possa surgir - nada mais posso dizer além disto: Lê Boris Vian; verás esclarecida a tua dúvida. Verás também que não, não foi um engano. A propósito de Boris Vian, aconselho a leitura deste post e deste, no blog apanhador no centeio, de onde a fotografia de Boris Vian, agora aqui publicada, foi desviada.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

bíblia, o biblo dos biblos

Questionam-me os meus conhecidos - amigos, talvez - porque é que gosto tanto da bíblia, se sou ateu, "anti-católico" - anti-católico entre aspas, que eu, salvo raras excepções, não sou anti nada. Anti, dizem eles que eu sou. Sou simplesmente indiferente aos católicos, como sou aos muçulmanos, judeus, hindus, budistas, etc., até ao momento em que me queiram envangelhizar. Aí sou anti, anti, anti, mui anti! Que me deixem em paz; e desde que não me venham perguntar porque é que eu não vou às suas sagradas casas de oração, eu também não lhes vou perguntar porque é que vão...
Gosto da bíblia, como gosto do alcorão. Como documentos históricos, antropológicos, etc., são preciosos livros. Deixo um excerto com que me delicio. É um excerto do terceiro livro da Bíblia, o Levítico (e faz parte do Pentateuco - o conjunto dos cinco primeiros livros: Génesis, o meu preferido; Êxodo; Levítico; Números; e Deuteronómio). O principal tema deste terceiro livro é a regulamentação do culto entre os Hebreus. O nome deriva da tribo de Levi, que foi a escolhida para o serviço litúrgico. Aqui fica então: Édouard-Henri Avril Zoofilia pintura
Guardai as Minhas leis e cumpri-as. Eu sou o Senhor que vos santifica. Todo aquele que amaldiçoar o seu pai ou a sua mãe será punido com a morte. Almadiçoou o seu pai ou a sua mãe e mereceu o suplício. Se um homem cometer adultério com a mulher de um outro homem, com a mulher do seu próximo, o homem e a mulher adúltera serão punidos com a morte. Se um homem coabitar com a mulher do seu pai, descobriu assim a nudez do seu pai; serão ambos punidos com a morte e merecem o suplício. Se um homem coabitar com a sua nora, serão ambos punidos com a morte; procederam desregradamente e merecem o suplício. Se um homem coabitar sexualmente com um varão cometeram ambos um acto abominável; serão punidos com a morte e mereceram o suplício. Aquele que desposar uma mulher e a mãe dela, comete uma desonestidade; serão queimados, ele e elas, para que não haja desonestidades entre vós. Se um homem se ajuntar com um animal, será punido com a morte, e matareis o animal. Se uma mulher se aproximar de um animal para se juntar com ele, mata-la-ás, assim como ao animal; serão condenados à morte e mereceram o suplício. Se um homem desposar a sua irmã, filha do seu pai ou filha da sua mãe, e se vir a sua nudez, ou ela vir a nudez dele, isso é um incesto e serão exterminados na presença dos seus concidadãos; ele descobriu a nudez da sua irmã e suportará o peso da sua iniquidade. Se um homem coabitar com uma mulher que esteja com indisposições, ao descobrir a sua nudez, descobre o seu fluxo e ela mesma descobre a sua imundíce; serão ambos eliminados do meio do povo. Não descobrirás a nudez da irmã da tua mãe, nem da do teu pai, porque é descobrir a nudez da sua parente; suportarão o peso da sua iniquidade. Aquele que coabitar com a tia, descobriu a nudez do tio; expiarão o seu pecado e morrerão sem filhos. Se um homem tomar a mulher do irmão, isso é uma impureza; descobriu a nudez do seu irmão, morrerão sem filhos. (Lv 20, 8-21)
Imagem: Zoofilia, de Édouard-Henri Avril. Mais sobre este pintor aqui, aqui e aqui. E cuidais, vós que ledes este post, que não estáis também condenados à morte por causa das vossas iniquidades? Lestes este blog, mereceis o suplício...

rascunho encontrado num caderno abandonado #56

Ninguém entende a Dor até que ela lhe entre pelo corpo adentro, pela alma acima. Momento sublime em que, então, a Dor se torna límpida; todavia, por mais simples que aos seus olhos pareça, ninguém compreende a sua Dor. Nada de admirável, pensa, também antes não entendia a Dor. Só quem sofre como eu, pensa, percebe. A companhia da Dor. E se, por acaso, acaso de dores menores, a Dor sai corpo afora, alma abaixo, logo com ela desaparece o entendimento. Ninguém entende a Dor, quando ela dói aos outros. É até, um exagero, um carácter fraco, um mariquinhas pé-de-salsa...
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domingo, 16 de dezembro de 2007

rascunho encontrado num caderno abandonado #55

Estudo para Monello de Vincenzo Gemito Escultura Desenho
Quando eu morrer...

Quando eu morrer
talvez recordes
com saudades
momentos que passámos
juntos.

Não merecem
o remorso
uma lágrima
um suspiro
no canto escondido do jardim
onde regressávamos
ao fim da tarde.

Quando eu morrer
não penses
no que te levou
uma tarde inexplicável
a nunca mais regressar.

Não tínhamos
combinado nada,
era a imprevisibilidade
de cada encontro
que tínhamos como certo
que nos unia num constante
sobressalto.

Sei
que de vez em quando
ao fim da tarde
suspiras;
talvez te questiones
se ainda te espero.

Quando eu morrer
verás;
nenhuma lágrima,
nenhuma dor
responderá
às tuas inquietações.

O remorso,
a saudade
não trazem de volta
aquela tarde. Algum dia
teria que ser.

Nos dias quentes
de Julho ninguém espera
o frio glacial
nem a neve.

De vez em quando
acontece:
gelam
os corações.

Imagem: Estudo para Monello, de Vincenzo Gemito (1852-1929) - Escultor Italiano. Para saber mais sobre este escultor, leia este post.

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sábado, 15 de dezembro de 2007

O Amigo Dedicado*

Certa manhã o velho Rato de água pôs a cabeça fora do buraco. Tinha uns olhos redondos muito vivos e uns duros bigodes cinzentos, e a sua cauda parecia um comprido elástico negro. Os patinhos estavam a nadar na lagoa, semelhantes a um bando de canários amarelos, e a sua mãe, toda branca com patas vermelhas, esforçava-se por ensinar-lhe a manter a cabeça dentro de água. - Vocês nunca poderão frequentar a boa sociedade, se não aprenderem a manter a cabeça dentro de água - dizia-lhes. E de vez em quando mostrava-lhes como devia ser feito. Mas os patinhos não lhe prestavam atenção alguma. Eram tão jovens que não sabiam que vantagens existem nisso de frequentar a sociedade.
*Conto de Oscar Wilde, in O Fantasma de Canterville e Outros Contos - Se puderem não deixem de ler este conto. A história do pequeno Hans e do rico Moleiro, Hugo. Um amigo dedicado, indeed... Infelizmente, tenho encontrado muitos amigos dedicados...

o meu perfil (a)político

Your Political Profile:
Overall: 10% Conservative, 90% Liberal Social Issues: 25% Conservative, 75% Liberal Personal Responsibility: 0% Conservative, 100% Liberal Fiscal Issues: 0% Conservative, 100% Liberal Ethics: 0% Conservative, 100% Liberal Defense and Crime: 25% Conservative, 75% Liberal

rascunho encontrado num caderno abandonado #54

- Finalmente vou ser feliz! - Exclamou B. segurando um copo pleno de whisky de malte, mais de 25 anos, afirmara M. - Meu caro, deixe que lhe diga... - Diga! - Pediu B. interrompendo M. - Digo se quiser! Quem é você para me obrigar? - Então, não diga! - Mas quem julga você que é? - Perguntou M. mostrando-se deveras ofendido. - Tem-se em demasiada consideração se pensa que é você quem me vai impedir! - Não quis ofendê-lo! - Então está bem!... - Sim estou, muito bem, obrigado! Finalmente vou ser feliz! - O copo de whisky escorregou-lhe da mão, caiu sobre a mesa e o líquido dourado entornou-se sobre M.
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

rascunho encontrado num caderno abandonado #53

As Palavras

Dançam
Sempre as mesmas palavras
Na memória
Sonhos cavados
Neste corpo frágil.

Lançam
Sempre as mesmas sementes
- Palavras que vergam, seduzem -
Estalam na carne
Com movimentos alados.

Dançam, voam, explodem
Chicotes
Atravessam a memória
- Trespassam o corpo
Com passos etéreos.

Dizem que sim, dizem que não.
Pedem, imploram, oferecem, tiram
Vão e veêm - um dia tive! -
E no interstício vive,
Do intervalo que houve,
O corpo que se arrasta - ouve! -
Pelas horas, pelos dias, pela vida.
Sequioso procura - guarida! -
Nada encontrará - sabe bem! -
Mas é a esperança que o mantém,
E as palavras - sempre as mesmas -
Que dançam - na memória...


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Trabalho Poético: O trabalho do poeta é como o do varredor de rua num dia de vento: ingrato.

manuel a. domingos, inblog meia-noite todo dia

rascunho encontrado num caderno abandonado #52

o saldo

Faço contas à vida,
Livros que queria comprar,
Contas que tenho a pagar,
Os dias que ainda me restam,
Dinheiro, Amor e Ilusões
Não me chegam para continuar.
Observo o caderno vermelho,
Não há Haveres para cobrar,
Apenas Deves para saldar.
Fecho o caderno velho,
Nada mais há a registar.
Só dúvidas; sonhos e ilusões
Que não se podem comprar.
É assim a (minha) vida!

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máscaras*

Ah quantas máscaras e submáscaras
Usamos sobre a alma! E quando, a gosto,
A alma tira a última das máscaras,
Será que ela conhece o simples rosto?

A vera máscara não está por trás
Mas espreita por ela conivente.
O hábito aceite, sonolento faz
O que em qualquer começo, consciente.

Como a criança teme a própria face,
A nossa alma, criança também,
Julga ser de outro o rosto em seu disfarce

E um mundo lhe vem de se enganar;
E quando o pensar já despida a tem
Ela se mascara p'ra desmascarar.

 *Soneto VIII de 35 Sonetos, de Fernando Pessoa, originalmente publicado em Inglês [35 Sonnets], em Lisboa, 1918. Tradução de Luísa Freire, in Poesia Inglesa (I), Fernando Pessoa, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

rascunho encontrado num caderno abandonado #51

o beijo

Nos arredores da cidade ninguém notava,
Éramos apenas mais dois rostos anónimos
Correndo de mãos dadas, saltávamos
Por entre os despojos da grande metrópole,
Nome maior que a cidade lhe dávamos
Com ironia, gozávamos e ninguém reparava.

Nos arredores lamacentos da metrópole,
Os segundos, na ampulheta, tombavam
grãos de desespero, juntando horas,
sonhos efémeros, saudosas partidas
E chegadas passageiras - demoras! -
Espíritos sufocados pela mesquinhez,
Dizias, e apertavas a minha mão.
Juntas as nossas esperanças, corríamos
Pelas traseiras das casas, despojos
Ou quintais, muros cercando outros sonhos
Outras esperanças, fantasias e ânsias
Que outros, como nós, nunca largaram.
Dentro das casas os sonhos eram
Esboços apenas, de quadros que haviam
De pintar - se nas suas vidas houvera
Aquele momento que tanto aguardaram
Aquelas veredas escondidas que imaginaram
Se houvera nas suas vidas a primavera,
Aqueles caminhos misteriosos que vão
Terminar em douradas mansões,
longos serões - oh vida! - felizes Verões...
Crescemos. Os nossos sonhos eram - são! -
Vidros em queda. E a esperança um espelho
Que nada reflectia - ou apenas um velho
Sonho quebrado no duro chão da vida -
Largaram-se as nossas mãos. Perdida,
A esperança esvaiu-se entre os dedos,
Ficámos sozinhos, nós e os nossos medos...

Hoje, também nós somos habitantes
Dos arredores dos sonhos, da esperança...
Fechámos o centro dos nossos espíritos
- Comércios que abriram falência -
E fomos viver para casas mais baratas.

Agora, de quando em quando, suspiramos
Observamos o horizonte, questionamos
- Mas não queremos ouvir respostas -
Facas espetadas nos nossos corações -
O que é feito do beijo que não demos?


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wish you were here - hoje sinto-me assim...

So, so you think you can tell Heaven from Hell, Blue skies from pain. Can you tell a green field From a cold steel rail? A smile from a veil? Do you think you can tell? Did they get you to trade Your heroes for ghosts? Hot ashes for trees? Hot air for a cool breeze? Cold comfort for change? Did you exchange A walk on part in the war, For a lead role in a cage? How I wish, how I wish you were here. We're just two lost souls Swimming in a fish bowl, Year after year, Running over the same old ground. What have we found? The same old fears. Wish you were here. Pink Floyd

Muerto*

Había muerto hace varios años y con él todas las personas que lo rodeaban: su familia y sus alumnos. Su mujer era una planta seca a su lado. Sus hijos habían aprendido a hacer lo que se esperaba de ellos. Sus alumnos obedecían la rutina impuesta por la escuela. Ya no sabía si era que sus hijos iban al colegio para él poder trabajar o era que él trabajaba para que sus hijos puedan ir al colegio. Había muerto sin darse cuenta porque todavía podía caminar y hasta hacer el amor con su mujer. Su cajón era su propio cuerpo.
*Diego Martínez Lora.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca... Que há-de ser de mim? Que há-de ser de mim?
(Álvaro de Campos)

wish*

*Se não poderem ter todos, qual desejam mais? Publiquei esta imagem porque me faz lembrar uma moldura (há muito remetida para o fundo de uma gaveta - com a fotografia de...) que diz assim:
"Friend is a Present which you give yourself. There is no better possession than a Faithful Friend. A true Friend is one who eases your heart-ache and pain, who Brightens your dark and troubled days. Friend is the Caring Hearts and the Willing Hands of life."
Obviamente, a pessoa que está na fotografia não corresponde à descrição que a emoldura...
(Imagem guardada há muito no meu disco rígido; não sei a fonte nem o autor... Se alguém se sentir lesado, comunique).

shampoo (2)

Tem aroma de rosmaninho, mentol e cidra... ...ou talvez tenha aroma de outra coisa qualquer. Todos os aromas me fazem lembrar de ti...

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

rascunho encontrado num caderno abandonado #50*

às vezes, acordo sobressaltado
sempre com a mesma inquietação
sonho que partiste, angustiado
acordo quando o tu me olhas
pela última vez, um olhar
inexpressivo, uma expressão
que nada me diz, nada transmite
o teu silêncio, o teu olhar absorto,
a pacatez em volta do teu rosto
fazem tremer o meu coração,
o meu corpo ergue-se, corre
ao teu encontro. Um impulso
ávido, bate contra o meu peito
para te agarrar. Estico a mão,
tacteio. O leito está, sempre,
vazio. Respiro profundamente.
Não sei, nunca, se partiste
ou se nunca lá estiveste...

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*O poema do Miguel Torga, que publiquei no post anterior, fez-me lembrar deste, talvez pelo primeiro verso, talvez pelo título, não sei...

PESADELO

Às vezes, vem-me à lembrança
Aquela que foi um dia
a minha praça rendida
sem condições...
E que, depois de tomada,
ficou ali sem gritar
o fatal «aqui-del-rei
que são ladrões!...»

Vem-me à lembrança Aquela que morreu
e que no céu contou a sua entrega
duma maneira tão casta
que Deus a deixou ficar

(para exemplo
daquelas onze mil virgens
que ali andavam
sem que ninguém soubesse
porquê, nem porque não!;
que foram como vieram
e que, por isso, negaram
a santidade profunda
da Criação!...)...

Vem-me à lembrança, e choro este meu pranto
de crocodilo sincero...
Eu sou determinado, e Satanaz bem sabe
que não sei fazer o bem
e faço o mal que não quero...


Miguel Torga, in O Outro Livro de Job (5.ª edição revista, Coimbra, edição de autor)

shampoo

Ando a lavar a cabeça com um shampoo que diz assim
skuteczny w walce z lupiezem od pierwszego uzycia, oczyszcza skóre glowy, do czestego stosowania.
os cabelos continuam a cair...

domingo, 9 de dezembro de 2007

Woman-on-top position

Woman on top position Édouard-Henri Avril pintura sexualidade painting sexuality
Woman-on-top position, de Édouard-Henri Avril. Outros trabalhos de Édouard-Henri Avril.

Hadrian and Antinous in Egypt

Hadrian and Antinous Édouard-Henri Avril painting homosexuality
Hadrian and Antinous in Egypt, de Édouard-Henri Avril.
«Belo era o meu amor, porém melancolia. Tinha aquela arte, que cativo fazia O amor, de ser triste em raiva e cupidez. Agora o Nilo o devolveu, o Nilo eterno. Sob anéis molhados, da Morte a lividez A lutar com nosso querer num sorriso terno.» Mesmo enquanto pensa, sendo o prazer mera Memória do prazer, revive, e tomando Os sentidos pela mão, a carne acordando, Tudo volta a ser o que dantes era. O corpo morto no leito se ergue e vive E deita-se com ele perto, inda mais perto, E mão invisível, sábia, a rastejar Em cada entrada do prazer desperto Segreda carícias que, embora furtivas, Deixam as últimas fibras a sangrar, Ó doces e cruéis da Pátria fugitivas!
Excerto de Antinous, de Fernando Pessoa. Original escrito e publicado em Inglês; Lisboa, 1917. Tradução de Luísa Freire. (In, Poesia Inglesa I, Assírio & Alvim, 2000) O original, em Inglês: «Beautiful was my love, yet melancholy. He had that art, that makes love captive wholly, Of being slowly sad among lust's rages. Now the Nile gave him up, the eternal Nile. Under his wet locks Death's blue paleness wages Now war upon our wishing with sad smile.» Even as he thinks, the lust that in no more Than a memory of lust revives and takes His senses by the hand, his felt flesh wakes, And all becomes again what 'twas before. The dead body on the bed starts up and lives And comes to lie with him, close, closer, and A creeping love-wise and invisible hand At every body-entrance to his lust Whispers caresses which flit off yet just Remain enough to bleed his last nerve's strand, O sweet and cruel Parthian fugitives!

Sappho

Sappho Édouard-Henri Avril sexuality homosexuality painting Safo pintura
Sappho, de Édouard-Henry Avril - Pintor Francês nascido em Algiers a 21 de Maio de 1843. Além de pintor, foi também ilustrador de Literatura erótica; trabalho que assinava com o pseudónimo Paul Avril. Avril estudou arte em vários salões de Paris; entre 1874 e 1878 frequentou a École des Beaux Arts de Paris. Adoptou o pseudónimo Paul Avril após ter sido escolhido para ilustrar Fortunio, de Théophile Gautier. A sua reputação cresceu e firmou-se rapidamente, tendo sido escolhido para ilustrar muitas obras de Literatura erótica; entre as obras mais conhecidas que Avril ilustrou encontram-se o romance Salammbô, de Gustave Flaubert, e Fanny Hill, de John Cleland. Morreu em 1928 em Le Raincy.

sábado, 8 de dezembro de 2007

devaneio spammer

Mensagem recebida no e-mail:
Oi, Anonimo (amorverdadeiro@hotmail.com) visitou o Portal Angels em 04 de Dezembro de 2007 e enviou uma mensagem para você. Clique no link abaixo: -->http://www.mensagensangels.com.br/sei_que_e_amor.html<-- [Este link redirecionava para um ficheiro executável, provavelmente infectado por um vírus estranho - e russo] Anonimo também deixou este recado para você: Gostaria que você ouvi-se bem a declaração de amor pois vem do fundo do meu coração.
Umas palavrinhas para este fã spammer que deve ter enviado este e-mail a milhões de pessoas, algumas provavelmente incautas. Fique sabendo que se há coisa que eu detesto - sim há muitas - uma delas são as redundâncias: O Amor ou é verdadeiro ou não é! Quanto ao vírus - julgo que está em consonância com o Amor. Mas, se o Amor é em si mesmo um vírus, para quê enviar-me outro vírus? Por outras palavras, para quê enviar uma cópia, se envia o original? Querido fã spammer, guarde o Amor que quer partilhar comigo para si!, que têm um Amor-próprio tão baixo...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

rascunho encontrado num caderno abandonado #49

Não poderei nunca dizer o teu nome

Não imaginas a força que foi necessária
Para colherem os sonhos que havia
Dentro de mim, nem a dor que sofri
Nem o sangue que suaram para semear
Os pesadelos que todas as noites
Me inquietam. São fantasmas,
Fantasmas com o teu rosto e a tua face
Que nunca esqueci. Os traços são agora
Mais definidos e carregados, embora
A memória com que te guardo se vá
Desvanecendo. É cada vez mais difusa
A esperança que ainda me acompanha.
Às vezes questiono-me se terás existido,
Se será possível que alguém desapareça,
Assim, de repente, sem deixar rasto,
Como um sonho quando acordamos,
E não recordamos nenhuma palavra,
Nenhuma imagem, nenhuma memória
De termos sonhado. Sem ter havido
Um adeus, nem que fosse apenas um
Olhar ou expressão do rosto. Não sei,
Às vezes penso que apenas em mim
Caminhaste um dia, e deste-me a mão
E eu sonhei que seria para sempre,
Mas era apenas um sonho, um sonho...
Porém, o teu rosto, tão nítido aqui
Na minha mente, na minha imaginação
Na minha memória que nunca pára,
Que não quer deixar de acreditar.
Mas eu não deixo de me questionar
Se terás existido? Uma face assim
tão real dentro de mim, diz-me que sim:
- É quando a dor me fere e se agudiza,
E pergunta sem saber o quanto magoa,
Como foi possível ter-te perdido?

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a minha vida numa palavra (4)

estropiado
*estropiado - adj. aleijado, mutilado; inabilitado; (fig.) alterado; desvirtuado. *estropiar - (It. stroppiare), v. t. cortar ou privar do uso algum membro a; aleijar; (fig.) desfigurar, desvirtuar o sentido da palavra, ideia; pronunciar mal; interpretar ou copiar mal um texto; v. refl. aleijar-se, mutilar-se. (1) (2) (3)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O Principezinho e a Raposa*

Foi então que apareceu a raposa.
- Olá, bom dia! - disse a raposa.
- Olá, bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou tão triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa...
- Ah! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- O que é que "estar preso" quer dizer?
- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?
- Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que é que "estar preso" quer dizer?O Principezinho Antoine de Saint-Exupéry Raposa
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?

(...)

A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o princpezinho.
- Por favor... Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...
- Só conhecemos as coisas que prendemos a nós - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!

(...)

- Ai! - exclamou a raposa. - Ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua - disse o principezinho. - Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quisseste que eu te prendesse a mim...

Antoine de Saint-Exupéry, in O Principezinho (Editora Caravela, 17.ª edição, pp. 66-74 - capítulo XXI).

*Este excerto é para mim o conjunto de palavras mais deprimente da história da Literatura; não fosse as lágrimas terem-se-me secado há muito, choraria que nem um desalmado. Nunca nenhum livro, nem filme, nem música, nem poema - me levou às lágrimas. Apenas O Principezinho. É, das obras de que gosto, aquela que mais detesto. É dos únicos livros que reli; não uma, nem duas ou três... Simplesmente perdi-lhe a conta. Até que decidi que não o podia voltar a reler. De cada vez que lhe pego, detesto-o mais um bocadinho. Apetecia-me pegar n' O Principezinho e esmigalhá-lo - tanto à personagem como ao livro. O triste do meu livro - que me foi oferecido - já foi atirado contra tudo. Ainda agora estou a olhar para ele de viés e só me apetece queimá-lo. E não é por ter um final infeliz. É por me fazer lembrar das pessoas que passam por nós, que nos prendem - ao contrário da raposa, sem que lho peçamos - e que depois continuam o seu caminho como se nada fosse... Puta de vida!

rascunho encontrado num caderno abandonado #48

A um Amor que não ousou

Sei que o dia se apagou
E não voltarás. O silêncio
inundou-nos a alma!

Escutas ainda a melodia
Que nos embalava? A alma!
Notas o tom? O silêncio

Imenso que nos invadiu.
As palavras silenciadas
A voz seca, o áspero olhar.

O dia era claro, cintilante
Mas o silêncio, escutas
O silêncio que nos feriu?

É o som de uma alma
que se dividiu.


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