domingo, 30 de setembro de 2007

111*

Por vezes retiro um livro de uma estante, quase sempre de poesia, ao acaso escolho uma página, e leio:
Ah, no terrível silêncio do quarto O relógio com o seu som de silêncio! Monotonia! Quem me dará outra vez a minha infância perdida? Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus - Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.
É quase como escolher um blog ao acaso, da minha lista de links, e ler um post. Com uma grande diferença: quando retiro um livro de uma estante, retiro Álvaro de Campos. Podem ler este poema (o poema 111) na página 380 da primeira edição da Poesia de Álvaro de Campos, volume 16 das Obras de Fernando Pessoa, da Assírio & Alvim.

questão

O jogo Dínamo de Kiev - Sporting vai ser jogado na Rússia*, ou não há ninguém na RTP que saiba que Kiev é na Ucrânia? Em baixo podem ver o mapa da Ucrânia, retirado desta página, onde podem encontrar mais informações sobre este país do Leste Europeu.
*Ou, numa perspectiva paranóica, é uma mensagem subliminar da RTP para que os Ucranianos votem no partido pró-Russo...

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

felizes para sempre

Antigamente todos os contos para crianças terminavam sempre com a mesma frase, e foram felizes para sempre, isto depois de o Príncipe casar com a Princesa e de terem muitos filhos. Na vida, é claro, nenhum enredo remata assim. As Princesas casam com os guarda-costas, casam com os trapezistas, a vida continua, e os dois são infelizes até que se separam. Anos mais tarde, como todos nós, morrem. Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre. Eu fui feliz para sempre na minha infância, lá na Gabela, durante as férias grandes, enquanto tentava construir uma cabana nos troncos de uma acácia. Fui feliz para sempre nas margens de um riacho, uma corrente de água tão humilde que dispensava o luxo de um nome, embora orgulhoso o suficiente para que o achássemos mais do que simples riacho - era o Rio.
José Eduardo Agualusa, in O Vendedor de Passados.

À parte isso*

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

liberdade

Anos depois, quando saía da faculdade e ia para casa, parecia-me que sentia o cheiro e o som da liberdade – aquele cheiro a relva molhada e o chilrear dos pássaros. Sim! Os fins de tarde é que são a vida! O pôr-do-sol, sentado junto ao rio, só, observando as aves que procuram o seu galho para passar a noite, ou a chuva que cai sobre a minha cabeça e escorre por entre os poucos cabelos que ainda me restam, isto é liberdade! Isto é vida! Ouvir o motor veloz dos carros passando sob o asfalto gasto ou o zumbido das conversas de café. O som cacofónico de uma discussão familiar. A mãe que puxa o garoto pela orelha com força e carinho. O pai que olha sério para a criança que não sabe se há-de rir se há-de chorar. Os autocarros que pegam e largam passageiros. Os semáforos que não cessam de mudar de cor. As montras das lojas que anunciam os novos descontos. A montra da livraria mostrando as novidades da rentrée. «Gostaria que estivesses aqui um dia comigo, para me veres cirandar pela cidade, qual barata tonta que deu de repente com a luz e que ofuscada anda de um lado para o outro aos encontrões!» Isto é vida! Sim! Sou infeliz, mas dentro dessa infelicidade, sinto-me livre! E isso é uma sensação indescritível. Podem achar-me louco, como muitos me acham, mas às vezes levanto-me a meio da noite e vou beber um copo e fumar um cigarro a um bar daqueles que fecham mais tarde. Sento-me só a um canto. Bebo. Fumo. E volto para a minha cama fria. Ou fico a noite inteira a ler o último livro que comprei. *Fotografia de Isabel Gomes da Silva, intitulada Até Amanhã.

domingo, 16 de setembro de 2007

a chuva sobre a infância*

Sempre que chove assim eu lembro-me dos gafanhotos. Não aqui, não em Luanda, claro, aqui nunca vi nada parecido. O meu pai, o velho Fausto Benedito, herdou, da avó materna, uma fazenda na Gabela. Íamos lá passar férias. Para mim era como visitar o paraíso. Brincava o dia inteiro com os filhos dos trabalhadores, mais um ou outro menino branco, dali mesmo, meninos que sabiam falar quimbundo. Fazíamos guerras entre índios e caubóis, com chifutas e lanças que nós mesmos fabricávamos, e até com espingardas de pressão de ar, eu tinha uma, um outro menino tinha outra, que carregávamos com maças-da-índia. A maça-da-índia, não deves conhecer, é um fruto pequenino, vermelho, mais ou menos do tamanho de um chumbo. Davam óptimas balas porque ao acertarem no alvo desfaziam-se, pluf!, manchando a roupa da vítima como se fosse sangue. (...) Lembro-me das tardes em que choviam gafanhotos. O horizonte escurecia. Os gafanhotos caíam atordoados no capim, primeiro um ali, depois outro acolá, e eram logo, logo, devorados pelos pássaros. A escuridão avançava, cobria tudo, e no instante seguinte transformava-se numa coisa ansiosa e múltipla, num zumbido furioso, num alvoroço, e nós corríamos para casa, a procurar abrigo, enquanto as árvores perdiam as folhas e o capim desaparecia, em poucos minutos, devorado por aquela espécie de incêndio vivo. No dia seguinte tudo o que era verde tinha desaparecido. Fausto Benedito contava que viu desaparecer assim, devorada pelos gafanhotos, uma carrinha verde. Deve ser exagero. *José Eduardo Agualusa, In. O Vendedor de Passados (Publicações Dom Quixote, edição booket, pp. 105-106). O título do post é o título do capítulo de onde este excerto foi retirado.

sábado, 15 de setembro de 2007

Infância*

89, 5 anos de ser, inocente e despreocupada, a vida era boa, felicidade embrulhada em meio metro de altura, desperto e eufórico, corria vales e montes, os desafios travados eram pequenos saltos e correrias tresloucadas atrás de um pedaço de borracha redondo que teimava em fugir á frente de um pé fino e suave que se metia em trinta e uns todos os dias. Madrugadas eram o despertar para pequenas viagens em frente a um quadrado mágico que me punha a lutar lado a lado com heróis na busca do bem e justiça, noção padrão de bom comportamento. Vida de plasticina, rodeado de amigos imaginários que educavam e partilhavam histórias de morrer a rir, com aquele sorriso com baliza frontal que se criara com o fim da era do leite e torradas. Cada pulo dado dia a dia ajudava-me a chegar cada vez mais perto deste presente responsável e preocupado no qual volto a desejar a euforia e energia de outrora, no qual desejo a companhia dos antigos amigos imaginários para travar as batalhas contra os vilões modernos que já não lutam mais pelo bem ou mal, mas sim pela cor suja num papel, tal qual as borratadas que eu fazia e o mundo ignorava. Qual será a diferença? Porque é que o quadrado mágico já não tem a mesma magia que tinha, e agora só me mostra aventuras e histórias nas quais eu não quero entrar ou ouvir? Porque é que os cento e vinte centímetros a mais que me ajudam a chegar a sítios onde antes não conseguia chegar, não me fazem chegar a lado nenhum? Porque é que a inocência se transformou em hipocrisia e violência? Tantas perguntas sem respostas que hoje ninguém resolve, devolvam-me os trinta e uns supersónicos e a bola de borracha…Voltem a dar-me 89!
*Título do autor, o meu amigo TrËk. Fotografia de J. C., intitulada Kung Fu(miga).

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

correio R&L*

As capelanias hospitalares, tal como têm vindo a funcionar, desde há alguns anos, nos estabelecimentos públicos de saúde, são completamente inconstitucionais e a sua existência, nos termos em que actualmente funcionam -- isto é: enquanto capelanias funcionalizadas como se de uma prestação de serviço de saúde se tratasse --, nem sequer está prevista na Concordata de 2004. Ver: aqui Contudo, a Igreja Católica Romana tem vindo a pressionar fortemente o Governo (Ministério da Saúde) no sentido de o obrigar a produzir um novo documento que regulamente o funcionamento daquela actividade de modo tal que, no essencial, fique assegurada a manutenção dos privilégios de que actualmente goza. No sentido de chamar a atenção do novo Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, Dr. Mário Soares, para aquela situação problemática, a associação República e Laicidade acaba de lhe remeter uma carta onde, para além de apresentar a sua forma de encarar a questão e de recordar uma outra missiva oportunamente enviada ao Ministro da Saúde sobre o mesmo assunto, anexa uma análise do historial da legislação que tem vindo a cobrir o funcionamento das capelanias hospitalares e uma estimativa do encargo que os vencimentos (só os vencimentos) dos capelães representa para o erário público. Ver: aqui Aparentemente, o Governo acaba de produzir um documento (projecto de novo regulamento das capelanias hospitalares) que não agrada aos bispos católicos, pelo que já hoje pudemos assistir aos protestos do Conselho Permanente da Conferência Episcopal. Ver: aqui Em que é que vai ficar todo este processo? Para já é impossível prever: se é verdade que a Igreja Católica Romana não quer perder um importante sector de influência social -- um sector onde, ao que consta, também costuma recolher importantes donativos em espécie…! --; verdade também é que, na gestão do processo, o Governo aparenta alguma vontade de corrigir a situação de gritante e escandaloso privilégio em que se tem vivido... Cá estaremos para ver... Saudações republicanas e laicas *Correio da Associação Cívica República & Laicidade.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

chorar*

Pela primeira vez estive em Lamego e não chorei [pronto, apenas um pouco e, somente, por dentro]. Provavelmente isto significa que nunca mais voltarei a chorar... Como tudo na vida, as lágrimas também se acabam... Dentro de mim, um enorme pedaço, deixou de existir...
*Confissão intíma

sábado, 8 de setembro de 2007

to read or not to read*

Ulysses também não mudou a minha vida (#1, #2, #3, #4). Li Retrato do Artista Quando Jovem e Gente de Dublin (o título original sempre me soou mais interessante: Dubliners), mas quanto ao Ulysses, nunca coincidiu a minha disponibilidade financeira ir ao seu encontro... Além disso, detesto bibliotecas e as suas burocracias. Se alguém mo quiser oferecer, prometo lê-lo em menos que uma semana. E a minha vida mudará certamente: fico sempre feliz da vida quando me oferecem um livro!, por pior que ele seja, dá-me alguns segundos de felicidade, mesmo que não passe das primeiras páginas. Mesmo que vá para a minha estante, ou secretária, ou mesa-de-cabeceira, e fique por lá esquecido... Mas, se quiserem mudar a minha vida um pouco mais (digamos, mudá-la a multiplicar por sete), então Em Busca do Tempo Perdido é o indicado! Por fim, se quiserem deixo a lista dos livros de Shakespeare que ainda não li, e no próximo verão prometo lê-los! *Confissão literária.

Toda a arte é completamente inútil*

Visto não me terem convidado, eu junto-me discretamente à discussão do momento na blogosfera (haja algo que nos afaste da novela [macabra(?)] dos McCann!) Os 10 livros que não mudaram a minha vida, uma "corrente" iniciada por manuel a. domingos. Aqui fica a minha lista:
  • Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago;
  • Os Maias, de José Maria Eça de Queiroz;
  • O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, de Yukio Mishima;
  • Os Possessos, de Fiódor Dostoiévski;
  • Um Diabo no Paraíso, de Henry Miller;
  • O Livro da Selva, de Rudyard Kipling;
  • As Filhas de Rebeca, de Dylan Thomas;
  • Sylvie e Bruno, de Lewis Carroll;
  • Vagão «J», de Vergílio Ferreira;
  • Histórias da Terra e do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen.
O mais provável é esta ser uma lista de livros que defraudaram as minhas expectativas, pois dei "prioridade" a autores de que gosto muito, e dos quais li toda, ou praticamente toda, a obra publicada (em Português, no caso dos autores estrangeiros)... *O título que escolhi para este post, é a frase com que Oscar Wilde termina o prefácio de O Retrato de Dorian Gray... Post-Scriptum: Tendo lido por aí acusações de que A ou B não gosta de literatura, porque o livro X ou Z faz parte da sua lista de escolhidos, não resisto a deixar aqui, em jeito de provocação, uma pequena citação (de Henry Fielding, in. Tom Jones): "(...) O mundo tem venerado exageradamente os críticos, imaginando-os homens de muito maior profundidade do que realmente são. Esta complacência inspirou aos críticos a audácia de assumir um poder editorial, e de tal modo foram bem sucedidos, que se tornaram agora os senhores e se atrevem a dar aos autores como suas as leis que originariamente receberam dos predecessores desses mesmos autores. O crítico, bem vistas as coisas, não passa do escriba cujo ofício é transcrever as regras e leis formuladas por esses grandes juízes que pelo seu grande génio foram alcandorados à categoria de legisladores (...)" Afirmar-se que alguém não gosta de literatura, porque o livro X ou Z não mudou a sua vida, é claramente exagerado e desproporcionado, e configura, na minha opinião, a tentativa de imposição de um cânone! Ora, um cânone é, quanto muito, uma referência, não uma regra...

difícil de definir*

Gabriel era mais atento que estudioso, mas tinha um fascínio por definições e, às vezes, brilhava com elas. Um dia um colega perguntou ao professor o que era uma «hipótese». Este patinou na resposta com longos arrazoados que a classe não entendeu. Era a vez de Gabriel brilhar. Levantou-se e pediu licença para dizer a definição que sabia, mas teve que repeti-la várias vezes para que o professor a entendesse: «Hipótese é uma coisa que não é, mas que se supõe que é, para se saber o que seria, se fosse». Mais claro que isto, só o teorema de Pitágoras…
*Título do autor: Francisco Rodrigues - Nascido a 9 de Março de 1937, em Moimenta de Vinhais, exerceu a profissão de bancário ao longo de 30 anos; foi colaborador dos diários «JN» e «PJ».

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Blog Addiction

75%How Addicted to Blogging Are You?

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Prece*

Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. Para ti eu criarei um dia puro Livre como o vento e repetido Como o florir das ondas ordenadas. Sophia de Mello Breyner Andresen (in. No Tempo Dividido, Editorial Caminho) *Título da autora. Estava a ouvir Lets Do It de Billie Holiday, enquanto lia este poema. E achei que estavam bem uma para o outro (a música para o poema)... Lets do it... Lets fall in love...