quinta-feira, 31 de maio de 2007

Hoje: apresentação de "Ali"

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Ah! A angústia, a raiva vil, o desespero

Ah! A angústia, a raiva vil, o desespero De não poder confessar Num tom de grito, num último grito austero Meu coração a sangrar! Falo, e as palavras que digo são um som Sofro, e sou eu. Ah! Arrancar à música o segredo do tom Do grito seu! Ah! Fúria de a dor nem ter sorte em gritar De o grito não ter Alcance maior que o silêncio, que volta, do ar Na noite sem ser! FERNANDO PESSOA

(nostalgia)*

O meu amigo já se foi embora há seis anos com a sua ovelha. Se o tento descrever, é só para não me esquecer dele. É tão triste esquecermo-nos de um amigo! Nem toda a gente teve um amigo na vida! E depois, posso ficar como as pessoas grandes que já não se interessam senão por números. ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY, In. O Principezinho *É o que a leitura d' "O Principezinho" me provoca. Há alguns anos, mais de dez, talvez quinze, depois de ler este livro, decidi que tinha que ler todos os livros de Antoine de Saint-Exupéry. Um dia, há cerca de sete anos, entrei numa livraria, onde me deparei com eles todos... Como três deles eram da colecção de livros de bolso das Publicações Europa-América, a soma não era muito grande, pelo que nem pensei duas vezes... Nunca passei do primeiro capítulo de nenhum deles!

long, long time ago...

Era uma vez... - Um rei! - dirão imediatamente os meus pequenos leitores. - Enganam-se, rapazes. Era uma vez um pedaço de madeira. Não era de madeira luxuosa. Tão somente um pedaço de madeira daqueles que, durante o Inverno, se costuma meter nos fogões e nas lareiras para acender o lume e aquecer os quartos. Não sei como aconteceu, mas um certo dia esse pedaço de madeira apareceu na oficina de um carpinteiro já velhote. Chamava-se Mestre António, mas toda a gente o tratava por Mestre Cereja pois trazia sempre a ponta do nariz luzidia e avermelhada, como se fosse uma cereja bem madura. Quando o Mestre Cereja deu de caras com o pedaço de madeira ficou feliz da vida. Esfregou as mãos de contentamento e borbotou a meia voz: - Este pedaço de madeira vem mesmo a calhar: vou utilizá-lo para fazer uma perna de mesinha. Assim disse, assim fez. Pegou no machado para o descascar e desbastar. Mas quando estava prestes a dar a primeira machadada, ficou com o braço suspenso no ar, pois ouviu uma voz que, baixinho, baixinho, lhe pedia: - Não me batas com muita força, está bem? CARLO COLLODI, In. As Aventuras de Pinóquio

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Greve Geral

os erros ortográficos

A língua [portuguesa, neste caso] é o instrumento através do qual um dado grupo social comunica [é um conjunto de signos através do qual uma determinada mensagem é transmitida do Emissor para o Receptor, e vice-versa, i.e., o Receptor dá um feedback ao Emissor, invertendo os papéis]. Sendo que a língua é um instrumento de comunicação, o ensino do Português deve ser encarado como uma disciplina transversal, comum a todas as outras disciplinas, ensinadas no grupo onde essa língua é utilizada - o que leva a que deva ser exigido rigor linguístico em qualquer disciplina, desde a Matemática à Filosofia, da Psicologia à Biologia, etc. Avaliar a aprendizagem de uma língua às partes, não faz qualquer sentido: como é que se pode interpretar que alguém entendeu uma mensagem, se não conhece os signos, sinais e regras em que a mesma está cifrada? Esta forma de avaliar, parece-me que vai na linha política propagandista que se tem vindo a alargar a todas as esferas da governação. Está-se a trabalhar para o embelezamento das estatísticas [nacionais e internacionais], ou seja, para o aumento da quantidade das qualificações, e não para o aumento da qualidade das qualificações dos Portugueses... Mais não é que o Programa Novas Oportunidades [em vez de criarmos empregos qualificados, que estimulem os Portugueses a obter mais e melhores qualificações, damos qualificações aos Portugueses, a ver se os empregos qualificados caiem do céu], aplicado ao 4.º e 6.º anos... Vamos dar o certificado de habilitações a todos os Portugueses: passamos a ter uma taxa elevada da população com o 12.º ano, uma taxa maior de pessoas com Ensino Superior, e acabamos com o analfabetismo! Que interessa que não se saiba o que se está a ler, desde que se leia bem? Que importa que não consiguamos transmitir uma determinada ideia, porque não possuímos competências ao nível da correcta utilização dos signos (e regras que regem a utilização desses signos)? Desde que as estatísticas nos coloquem no topo... E assim, num golpe de secretaria, passamos a ter bons resultados a nível da aprendizagem do Português... É apenas o início. E a Matemática, que apresenta sempre péssimos resultados? O que custa é começar... Veremos onde isto vai parar!?...

7 razões para fazer greve*

  1. desemprego;
  2. relações laborais precárias;
  3. perda de direitos na função pública;
  4. reforma da segurança social;
  5. redução do poder de compra;
  6. diminuição, em qualidade e quantidade, dos serviços públicos;
  7. flexisegurança.
*Artigo de Daniel Oliveira, In. Arrastão. A negrito aquelas com que pessoalmente concordo.

citação egocêntrica*

Passou por mim uma rapariga que amara em tempos; alguém que louco beijei; que agarrei de encontro ao meu peito, como se a pudesse meter dentro de mim; cujo corpo vagaroso percorri com as minhas mãos apaixonadas. Cujo cheiro ficou impregnado no meu corpo até ao dia em que o fétido cheiro putrefacto da sombra negra me prive desta memória. Cujo sabor agridoce da sua boca ainda escorre pela minha garganta. Tive a sensação de a amar outra vez; de a poder olhar mais uma vez dormindo e achá-la bela. Poderia desprezar a minha vida perante a hipótese de vertê-la em morte, para a salvar de mil inimagináveis perigos. Mas era apenas o nojo, o vazio que ficou, que faz delirar o meu cérebro. Uma angústia brotou do cerne do meu organismo, sob a forma de um ácido torpor no estômago; um súbito e forte batimento do coração e um revolver nos intestinos; um fluxo vasto e espesso de sangue irrigou o meu cérebro; e um refluxo secou-o. Uma tontura. O nojo, o vazio. *Myself, In. Op. Cit.

play the game

Open up your mind and let me step inside Rest your weary head and let your heart decide It's so easy when you know the rules It's so easy all you have to do Is fall in love Play the game, Everybody play the game of love. When you're feeling down and you resistance is low Light another cigarette and let yourself go This is your life Don't play hard to get It's a free world All you have to do is fall in love Play the game, everybody play the game of love My game of love has just begun Love runs from my head down to my toes My love is pumping through my veins Driving me insane Come come come play the game This is your life - don't play hard to get It's a free world all you have to do is fall in love Play the game QUEEN, In. The Game (1980)

domingo, 27 de maio de 2007

rascunho encontrado num caderno abandonado #39

No outro dia; fugi de ti... podes desculpar-me? Quando me cruzei contigo, caiu-me um pensamento defronte dos olhos, que se sentiram cansados. Pensei que seria a primeira ou a última vez que te via. Perdoa-me o absurdo da expressão. Não sei se me entendes; mas a angústia desse momento continua vincada em mim, doendo-me furiosamente. Desci as escadas e senti a tua presença. Tentei esquecer, mas não pude. Talvez não me ames; é certo que nunca me viste, nem ao menos me ouviste. Eu para ti não existo. Mas em cada olhar teu, em cada gesto, em cada palavra, eu sofro-me, não serem para mim. Quando finalmente me cruzei contigo, quando pela primeira vez me olhaste, quando fizeste um gesto que seria meu, a alegria e o desespero foram tantos, que eu não pude ficar. De resto, nem cheguei a saber se era realmente para mim que olhavas, se era para mim que dirigias o gesto com que ias juntar o meu destino ao teu; fugi!

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sexta-feira, 25 de maio de 2007

11ª concentração motard Pinhel 2007*

*Começa hoje a 11.ª Concentração Motard, em Pinhel. Para saberem o programa, cliquem na imagem para a ampliar.

excelentes*

O governo inventou a categoria dos "excelentes" funcionários públicos para evitar promover quem que que seja. A categoria depende de quem classifica o "excelente". E quem classifica o "excelente" pode acabar na dependência de alguém prestimoso como a directora regional do norte do ministério da Educação. Eles andam - estão - aí.
*Post do João Gonçalves, In. Portugal dos Pequeninos

quinta-feira, 24 de maio de 2007

A Falência do Prazer e do Amor

I. Beber a vida num trago, e nesse trago Todas as sensações que a vida dá Em todas as suas formas [...] .................................... ...................... Dantes eu queria Embeber-me nas árvores, nas flores, Sonhar nas rochas, mares, solidões. Hoje não, fujo dessa ideia louca: Tudo o que me aproxima do mistério Confrange-me de horror. Quero hoje apenas Sensações, muitas, muitas sensações, De tudo, de todos neste mundo - humanas, Não outras de delírios panteístas Mas sim perpétuos choques de prazer Mudando sempre Guardando forte a personalidade para sintetizá-la num sentir. ................................. Quero Afogar em bulício, em luz, em vozes, - Tumultuárias [cousas] usuais - O sentimento da desolação Que me enche e me avassala. ................................. Folgaria De encher num dia, [...] num trago, A medida dos vícios, inda mesmo Que fosse condenado eternamente - Loucura! - ao tal inferno, A um inferno real. (...) IV. Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído, Só sinto um vácuo imenso onde alma tive... Sou qualquer cousa de exterior apenas, Consciente apenas de já nada ser... Pertenço à estúrdia e à crápula da noite, Sou só delas, encontro-me disperso Por cada grito nêbedo, por cada Tom da luz no amplo bojo das botelhas. Participo da névoa luminosa Da orgia e da mentira do prazer. E uma febre e um vácuo que há em mim Confessa-me já morto... Palpo, em torno Da minha alma, os fragmentos do meu ser Com o hábito imortal de perscrutar-me. FERNANDO PESSOA, In. Fausto [Poema dramático que Fernando Pessoa não chegou a concluir, e de que existem diversos fragmentos]
FAUSTO. Filosofia, Leis e Medicina, Teologia até, com pena o digo, Tudo, tudo estudei com vivo empenho! E eis-me aqui agora, pobre tolo, Tão sábio como dantes! É verdade Que sou mestre, doutor, e há já dez anos Que discípulos levo, a meu talante, À esquerda, à direita, ao sul ou norte, - Mas conheço que nada nós sabemos! Rói-me isso o coração! Sinto-me acima De mestres e de padres e de escribas; Não me perseguem dúvidas nem 'scrúpulos, Nem do demónio ou do Inferno hei medo - Mas também nunca tenho um'hora alegre! Nem chego a imaginar que haja ciência Em que deveras creia, nem que saiba Cousa alguma ensinar que aos homens sirva, E convertê-los possa ou melhorá-los. Também não possuo eu nem bens, nem ouro. Nem grandezas ou glórias deste mundo: Um cão não suportara uma tal vida! Por isso me entreguei todo à Magia, Para ver se do espírito as potências Alguns arcanos revelar-me podem, Por que não haja com suor amargo De ensinar o que ignoro; o que sustenta Do mundo o interior conhecer logre, Veja as forças activas, veja as causas E cesse o traficar com vãs palavras. JOHANN WOLFGANG VON GOETHE, In. Fausto

Rui Pedro*

Recebido por e-mail: À semelhança do que tem sido feito para encontrar a Maddie, espero que agora façam o mesmo com o "nosso" Rui Pedro! Esta mensagem é um dos métodos a que a mãe do Rui Pedro tem recorrido para que a ajudem a encontrar o filho, já que as autoridades Portuguesas têm deixado arrastar este caso há já cinco anos. O mínimo que podemos fazer é reenviar esta mensagem aos nossos contactos na esperança de que um dia ela venha dar os seus frutos. Por favor divulguem esta mensagem aos vossos contactos nacionais e internacionais. *Clique na imagem para ampliar. Divulgem esta messagem nos vossos blogs, e por e-mail. PORQUE TODOS OS PORCOS SÃO IGUAIS, MAS ALGUNS PORCOS SÃO MAIS IGUAIS QUE OS OUTROS!

quarta-feira, 23 de maio de 2007

memorial*

Mark Rothko painting abstracto quadro pintura Porque os outros se mascaram mas tu não Porque os outros usam a virtude Para comprar o que não tem perdão. Porque os outros têm medo mas tu não. Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão. Porque os outros se calam mas tu não. Porque os outros se compram e se vendem E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não. Porque os outros vão à sombra dos abrigos E tu vais de mãos dadas com os perigos. Porque os outros calculam mas tu não. SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN *Post "roubado" ao Luís, do GayFeel. Imagem Mark Rothko. Não resisti a este belíssimo poema de Sophia...

Onde Estás? [post #500]

terça-feira, 22 de maio de 2007

maio, 22

Hoje faço anos - Que é como quem morre A cada instante! Faço anos...

ANIVERSÁRIO*

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era um tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minha lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


ÁLVARO DE CAMPOS (15 de Outubro de 1929 [13 de Junho de 1930]), In. Poesias (Assírio & Alvim, Março de 2002, páginas 403-405)

*Título do Autor.

Como o tempo passa*

Não há um ano que passe sem se inventar um cronómetro mais complicado e capaz de medir o tempo com cada vez maior minúcia. São máquinas invejáveis que apetece ter no pulso, acompanhando a nossa vida como um segundo coração. Na verdade, não consigo pôr o meu relógio sem me lembrar do despertador que eu e os meus irmãos escondíamos debaixo dos cobertores dos gatinhos recém-nascidos, mas órfãos, para que pensassem que era o coração da mãe deles a bater. É por isso legítimo que anseie ainda estar vivo quando algum mestre-relojoeiro de Genebra, porventura iluminado por umas luzes de metafísica, seja capaz de criar um cronómetro que meça não só o tempo físico como o tempo real. Um minuto debaixo da broca do dentista ou numa montanha-russa são horas; uma hora a fazer amor ou a ler um bom livro são segundos; um dia, quando se tem seis anos, são meses; um ano, quando se tem mais de trinta anos, é uma semana: é mais do que sabido que o tempo, tal como o sentimos, não é o mesmo que medem as máquinas. (...) MIGUEL ESTEVES CARDOSO, In. A Minha Andorinha *Título do Autor

segunda-feira, 21 de maio de 2007

E a Morte Perderá o seu Domínio*

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domíno.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.


DYLAN THOMAS, In. A Mão ao Assinar este Papel

*Tradução de Fernando Guimarães (Assírio & Alvim, 2ª Edição, 1998)
A versão original pode ser lida no post abaixo.

And Dead Shall Have No Dominion*

And death shall have no dominion. Dead men naked they shall be one With the man in the wind and the west moon; When their bones are picked clean and the clean bones gone, They shall have stars at elbow and foot; Though they go mad they shall be sane, Though they sink through the sea they shall rise again; Though lovers be lost love shall not; And death shall have no dominion. And death shall have no dominion. Under the windings of the sea They lying long shall not die windily; Twisting on racks when sinews give way; Strapped to a wheel, yet they shall snap in two, And the unicorn evils run them through; Split all ends up they shan't crack; And death shall have no dominion. And death shall have no dominion. No more may gulls cry at their ears Or waves break loud on the seashores; Where blew a flower may a flower no more Lift its head to the blows of the rain; Though they be mad and dead as nails, Heads of the characteres hammer through daisies; Break in the sun till the sun breaks down, And death shall have no dominion. DYLAN THOMAS *Título do Autor.

apresentação de "Ali"

Cliquem na imagem para ampliar!

dragão*

Dragão Escher desenho Desenho de ESCHER *Futebol Clube do Porto, campeão nacional de futebol, 2006/2007. Parabéns.

domingo, 20 de maio de 2007

futebol*

Observava com delícia o prazer com que aqueles corpos atléticos corriam atrás de uma bola gasta, quase a rebentar. E, de quando em quando, corria também para aquela esfera misteriosa que nos unia de uma forma transcendente, ignorando os nossos vícios e virtudes, méritos e defeitos, medos e desejos, unindo-nos num todo denso e uno, num todo aconchegante e suado; era provavelmente esse o prazer do futebol, não nos distinguia: no momento da vitória festejávamos todos com a mesma alegria e euforia; e no momento da derrota o desânimo e as lágrimas eram partilhados na mesma dor.
*Eu mesmo, In. Os Cadernos Secretos de Sébastian (página 139)

We will rock you*

Buddy you're a boy make a big noise Playin' in the street gonna be a big man some day You got mud on yo' face You big disgrace Kickin' your can all over the place Singin' We will we will rock you We will we will rock you Buddy you're a young man hard man Shoutin' in the street gonna take on the world some day You got blood on yo' face You big disgrace Wavin' your banner all over the place Singin' We will we will rock you We will we will rock you Buddy you're an old man poor man Pleadin' with your eyes gonna make You some peace some day You got mud on your face You big disgrace Somebody gonna put you back in your place We will we will rock you We will we will rock you written by BRIAN MAY, guitar player of QUEEN *Antes de sabermos quem é o campeão nacional de futebol, o lado A, de We Are The Champions.

Técnicas*

Não vivemos, como se ouve, na idade de técnica, vivemos na idade das técnicas. Tudo está reduzido a técnicas de marketing americanadas e ridículas. Marketing para vender produtos, marketing para uma pessoa se vender a si própria em entrevistas de emprego, cartas de apresentação e currículos. E o pior é que estas técnicas são tão absurdas e, no entanto, mais eficazes por haver a noção generalizada de que elas são mais eficazes. Convencem porque passam a mensagem que convencem. É o marketing do marketing.
MDA, In. Thunder Road. *Um abraço, via internet (blog), para ti MDA.

sábado, 19 de maio de 2007

Metamorfose*

Apesar de ser um crocodilo, para ela a sua pele era macia. Apesar de ser uma doninha fedorenta, cheirava bem. O amor da sua mulher era tão grande, que embora ele fosse um elefante, ela considerava-o elegante. E, apesar de andar tão devagar quanto um caracol, para ela ele era muito veloz. Até que um dia o surpreendeu em flagrantemente com uma amante e reparou de súbito o repugnante que ele realmente era. Acordou e constatou como a pele dele era áspera e irritante. Tapou o nariz pelo seu fedor. Viu-o muito gordo e muito vulgar, pelo que de imediato se divorciou.
DIEGO MARTÍNEZ LORA *Título do Autor

A definição lusocêntrica da humanidade*

Descobrir grandes diferenças entre os povos não é um fácil trabalho, já que Deus nos criou a todos iguais. Mas alguém tem de fazê-lo e, mal por mal, mais vale que seja eu, que tenho a vantagem de discordar de mim próprio, mas de uma maneira aceitável e simpática. É quando se tem de explicar às criancinhas como são os suiços e os turcos que o cérebro mais se quer acossado de clarividência, simplismo e uma dose simpática de pura mentira e especulação. Esta semana, perguntou-me o meu sobrinho-neto - tenho para mim que não se é verdadeiramente homem até se ter um sobrinho-neto - o que era um «grego». Após algum desconforto e muita exegese escusada de Homero e Platão, lá me visitou a inspiração e pude responder de maneira a satisfazer a curiosidade do petiz. Mais do que isso, creio ter descoberto, no meio da minha estafada inocência, uma nóvel maneira de explicar os estrangeiros. No fundo, resume-se a uma linha: todos os estrangeiros são praticamente iguais aos portugueses, excepto numa ou outra característica exagerada, coitados. Um grego, por exemplo, é um português mal disposto. Podem depois juntar-se outras características - «que gosta excessivamente de beringelas», por exemplo - mas tenho por mim que é uma batota desnecessária. Na definição lusocêntrica perfeita, basta um adjectivo. (...) Um francês, por exemplo, é um português com a mania que é bom. Repare-se que também funciona ao contrário: um português, em larga medida, é um francês inseguro do valor dele. Um inglês é um português solitário. Um italiano é um português feliz. Assim se vê que o italiano é o contrário do grego, o que até é verdade. Seja como for, o protuguês está sempre no meio, que é como convém. De Agostinho da Silva roubo a definição do brasileiro - é um português à solta. (...) Um espanhol é um português orgulhoso. Que bate muitas palmas. Não, esta segunda parte já não está autorizada pelo regulamento. Façam de conta que não leram. Um japonês é um português tímido. Um argentino é um português que tem a mania que não é português. Um suiço é um português policial. Um alemão é um poruguês profundo. Repare-se de passagem, com admiração, como evitei de todo o epíteto «nazi». Um turco é um português violento. Um irlandês é um português simpatiquíssimo. Um belga é um português apátrida. Um australiano é um brasileiro inglês - não, esperem aí, já estou a fazer batota outra vez. Um australiano é, digamos, um português algarvio. Pensando bem, não vejo porque não se hão-de usar os povos regionais para obter uma definição mais rigorosa. Um neozelandês, por exemplo, é muito um beirão bem-educado e um mexicano é um alentejano sentimental. Um cubano é um italiano feliz - ou seja, um português duplamente bem disposto. (...) Deixarei aqui algumas nacionalidades para as quais ainda não obtive definições suficientemente redutoras, na esperança que algum leitor mais atilado e viajado me possa socorrer: chilenos; austríacos; angolanos; chineses; cabo-verdianos; holandeses; dinamarqueses; indianos; americanos... MIGUEL ESTEVES CARDOSO, In. A Minha Andorinha (Assírio & Alvim, Outubro de 2006) *Título do Autor.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

É que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingindo o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou - apenas - os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio. MÁRIO SÁ-CARNEIRO, In. A Confissão de Lúcio (Edições Ática, Julho de 1999 - reimpressão da primeira edição Ática de 1945)

o sistema redentor: doença e cura

Faça-se uma rápida visita a uma casa de alienados e teremos a prova suficiente de que a fé salva em certas circunstâncias, de que a beatitude ainda não transforma em ideia verdadeira uma ideia fixa, de que a fé não desloca montanhas, mas as coloca muitas vezes onde as não há. Um padre não se renderá a essa prova: porque ele nega por instinto que a doença seja doença, que o manicómio seja manicómio. O cristianismo precisa da doença, quase como a antiguidade grega precisava dum excedente de saúde; tornar as pessoas doentes, eis o verdadeiro pensamento que está por detrás de todo o sistema redentor da Igreja. E a própria Igreja não é ela, como último ideal, o manicómio católico?
FRIEDRICH NIETZSCHE, In. O Anticristo

quinta-feira, 17 de maio de 2007

dia mundial contra a homofobia #2

dia mundial contra a homofobia

post a ler

José Luís Jesus, dotado do "nobre título" dux veteranorum da Universidade de Coimbra, garante-nos que os agressores "estão devidamente identificados"; que ainda "esta semana serão feitas todas as averiguações"; e que caso tenha havido abusos "o CV vai até às últimas consequências". Além de se fazer passar por uma autoridade para tratar o que as leis normais, iguais para toda a gente, deveriam resolver, este estudante acrescentou ainda, em declarações mais recentes: "já sabemos que é tudo mentira! Se o estudante tem um rompimento no escroto, foi porque fez outra coisa qualquer!" Parece incrível, mas é verdade: as "leis" da praxe são feitas para proteger e fomentar a barbaridade e não precisam de grandes averiguações para "julgar" e tomar as suas "decisões".
Para quando uma lei, cívil, que puna severamente essa "coisa" a que chamam praxe, essa barbárie que mentecaptos trogloditas, vestidos de "doutores", prepetuam, sinal de um certo tipo de ignorância que grassa nas nossas universidades e, consequentemente, na nossa sociedade. Para quando a civilização?!

desemprego

contra a «santuarização» do Hospital Dona Estefânia

O Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, está profusamente decorado com fotografias e imagens religiosas (paredes de corredores no R/C e 1º piso do edifício principal) e, segundo o seu capelão (católico), "a Igreja tem a intenção de transformar o hospital num espaço sagrado (...) um santuário com área museológica", só faltando para tal "a vontade dos governantes". ver: aqui Porque nenhum edífício estatal pode ser apropriado por um grupo religioso para ser transformado em «santuário», a Assocoação Cívica República e Laicidade escreveu ao Ministro da Saúde da República Portuguesa a solicitar a tomada de medidas adequadas à situação, lembrando que o Estado está constitucionalmente separado das igrejas e outras comunidades religiosas, que, segundo a Lei da Liberdade Religiosa, "o Estado não adopta qualquer religião" e ainda que "ninguém pode ser obrigado (...) a receber (...) propaganda em matéria religiosa". ver: aqui
Saudações Republicanas e Laicas

a ler, i.e, comprar quando houver disponibilidade monetária

Podem ler o primeiro capítulo no blog Minisciente. O lançamento foi ontem, dia 16, na Fnac Chiado. Podem saber mais sobre a obra de Eduardo Pitta no seu site. Um pequeno excerto: Na tarde em que o leu, Nora gelou. Tinha gravada na memória a imagem de Martim na cama com o filho do motorista. A casa da Curia só tinha camas de casal, e as férias de Verão, tal como as do Carnaval e da Páscoa, impunham protocolos próprios. Embora fossem cinco, os quartos da casa não eram grandes. Anos houve em que o Grande Hotel foi uma extensão natural do núcleo familiar. Naquele dia, Nora julgava-os entretidos na vila. Seriam seis da tarde quando foi ao quarto à procura de uma revista extraviada. E então viu. Completamente nus, a dormirem profundamente, o radiador aceso em cima do tapete, muito próximo da cama, lençóis e cobertores atirados para trás, a perna esquerda do Tó atravessada nas costas do filho. Toda ela abanava, mas obrigou-se a olhar, a custo sustendo a respiração. Depois fechou a porta. À noite pretextou uma enxaqueca e pediu que lhe servissem o jantar no quarto. O marido nunca soube. Era preciso evitar confusões, perguntas embaraçosas, recriminações mútuas, os mexericos que um regresso intempestivo provocaria, sabe-se lá com que consequências para o motorista. Todos se interrogariam: o marido, os pais, os sogros, a irmã, os amigos, os outros empregados. Quando as férias acabaram, tudo voltou à rotina. Nora desdobrou-se em estratégias para dificultar o convívio dos rapazes. Matriculou o filho no Instituto Italiano, impôs aulas de judo nas noites que sobravam e arranjou um explicador de matemática que só tinha vaga ao sábado à tarde e morava em Algés. Ao mesmo tempo que achava simpática a ideia do judo, o marido aprovou o cuidado com a matemática. A cultura italiana deixou-o indiferente.

Tadzio*

Era um grupo de jovens entre a infância e a adolescência, reunidos em volta de uma mesa de verga, sob o olhar atento de uma governanta ou simplesmente dama de companhia: três rapariginhas aparentemente entre os quize e os dezassete anos e um rapaz de cabelos compridos de uns catorze anos. Aschenbach viu com espanto que o garoto era de uma beleza perfeita. O rosto pálido, de uma doce severidade, enquadrado por anéis de cabelo de um alourado quente de mel, o nariz direito, a boca graciosa, a expressão de gravidade adorável e quase divina, lembravam o momento mais nobre da escultura grega e, apesar da perfeição acabada da forma, os traços eram de um encanto tão pessoal, tão único, que o observador não se lembrava de ter encontrado, quer na natureza, quer na arte, obra-prima tão conseguida. THOMAS MANN, In. Morte em Veneza *O Equivalente masculino, na Literatura, para Lolita.

Lolita*

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita. VLADIMIR NABOKOV, In. Lolita *Para mim este é o início de um romance mais belo que a Literatura alcançou. O início de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquéz não fica nada atrás... Mas o primeiro parágrafo de Lolita é fulminante.

terça-feira, 15 de maio de 2007

7

O Luís lançou-me o desafio de me retratar com 7 palavras, para 7 questões... Tentei... Tentei... 7 vezes tentei... Mas nem 7 vítimas consegui encontrar... É que a maioria das hipóteses já estavam... ocupadas. Deixo aqui as perguntas. Para quem quiser tentar... 7 coisas que tenho de fazer antes de morrer: 7 coisas que mais digo: 7 coisas que eu faço bem: 7 coisas que eu não faço: 7 coisas que adoro: 7 coisas que odeio: 7 amigos para continuar o jogo:
Agradeço o desafio, e lamento não poder corresponder... Eu que até gosto tanto destes desafios blogosféricos... Mas (ficam a saber uma coisa sobre mim) o que eu mais detesto é falar de mim... Não por não gostar... Mas por não conseguir... Digamos que o meu QI Emocional não é lá muito alto... Ou então é algum trauma freudiano... O que mais odeio? Não podia deixar de partilhar isto com quem não me conhece: freiras e padres... O que mais adoro? Livros... Por falar em 7's... Estou a chegar aos 700 livros... [Contando apenas com Literatura]... O que faço bem? Nada? Passar uma tarde inteira no café, a fumar e a ler um livro ou o jornal... O que mais digo? Tenho mesmo que dizer? Merda!...

Geoffrey Chaucer*

Geoffrey Chaucer, poeta inglês, nasceu em Londres, cerca de 1340, na burguesia da época. O pai era comerciante de vinhos, e julga-se que lhe terá dado uma educação previligiada. O pouco que se sabe da sua vida, conhece-se através de documentos oficiais da corte dos reis Eduardo III e Ricardo II, que registam os seus movimentos e cargos, enquanto membro destas cortes. Em virtude do seu casamento com uma das damas de honra da rainha, ficou em contacto directo com a corte, o que lhe permitiu que realizasse diversas viagens de carácter diplomático pela Europa, entre 1370 e 1378. A arte e literatura italiana marcaram-no profundamente, tendo conhecido, aquando das suas viagens, a obra de Dante, Petrarca e Boccaccio. Após este peródo de viagens, regressou a Inglaterra, onde ocupou diversos cargos oficiais, como o de inspector das alfândegas de Londres. Foi responsável de palácios e parques reais, e residiu ainda em Kent, onde foi parlamentar. Os seus últimos dias foram passados numa casa próxima da abadia de Westminster, onde foi enterrado, ao falecer, em 1400. A sua obra reflecte um período de transiçãao da Idade Média para o Renascimento. As principais obras são: Contos da Cantuária, Tróilo e Criseida, A Cortesia do Amor e O Parlamento das Aves. A sua obra mais conhecida, Contos da Cantuária, retrata a sociedade medieval inglesa. Foi escrita entre 1380 e 1390. Os contos são narrados através de trinta peregrinos de diversos estratos sociais, que se encontram reunidos na pousada do "Tabard de Southwark", onde repousam, a caminho da tumba de Tomas Beckett, em Canterbury. A cada peregrino é proposto que relate um conto aos companheiros, de modo a amenizar a jornada... Considerada a obra-prima de Geoffrey Chaucer, Contos da Cantuária marca o início do domínio do inglês escrito sobre o latim e o anglo-normando, facto que leva a que muitos considerem Chaucer o pai da literatura inglesa. Chaucer é ainda considerado, juntamente com William Shakespeare, um dos poetas mais representativos e brilhantes da literatura britânica. Imagem retirada do artigo da Wikipédia sobre Geoffrey Chaucer, que podem consultar, em inglês (mais completo) ou em português. *A ideia deste post surgiu, após diversos internautas terem vindo parar ao blog, procurando contos de Geoffrey Chaucer.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

post a ler*

Foi uma surpresa positiva que Lula da Silva, um Presidente ambíguo e pouco dado a rupturas, tenha dito a Ratzinger que o Brasil vai «preservar e consolidar o Estado laico». B-16 pedira, nessa entrevista, uma Concordata que garantisse os privilégios a que a ICAR está habituada noutros países: isenções fiscais e ensino do catolicismo na escola pública a expensas do Estado, por exemplo (com o acinte extra da obrigatoriedade do ensino do catolicismo). Também quereria interferir, aparentemente, na legislação sobre aborto e distribuição de anticoncepcionais. Levou, em tudo, um rotundo «não».
*No Diário Ateísta.

campeão nacional

A liga portuguesa de futebol decide-se no próximo domingo, a partir das 19:15. Benfica, Porto ou Sporting, um deles será o próximo campeão nacional de futebol. Nada que não seja do conhecimento geral... Vou preparar três posts, com três imagens diferentes, para dar os parabéns ao vencedor. A música será a mesma para todos: We are the Champions. Benfica, Porto ou Sporting? Aceitam-se apostas...

domingo, 13 de maio de 2007

Tema e Voltas

Mas para quê Tanto sofrimento, Se nos céus há o lento Deslizar da noite? Mas para quê Tanto sofrimento, Se lá fora o vento É um canto na noite? Mas para quê Tanto sofrimento, Se agora, ao relento, Cheira a flor da noite? Mas para quê Tanto sofrimento, Se o meu pensamento É livre na noite? MANUEL BANDEIRA, In. Poesias

rascunho encontrado num caderno abandonado #38

O rio corre, indiferente!
O barco que transporta é a vida!
A sua água é transparente,
São lágrimas da despedida...


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sábado, 12 de maio de 2007

Os Jogadores de Xadrez - Poema de Ricardo Reis


Ouvi dizer que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra muros caídos,
Trespassados de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa vitória próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha alta,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como febre,
O amor cansa, porque é sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah, sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.

RICARDO REIS (01-06-1916), In Poesia (Assírio & Alvim) *Título do Autor

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Casara com a filha dum seu antigo professor, de quem herdou, assim, a clínica e a fortuna. A mulher dera-lhe filhos, que já iam pelos estudos fora, espigando e mostrando, na viveza intelectual, a boa cepa dos pais. Cinco vezes por semana, intervaladas pelas quintas-feiras e domingos, entrava no consultório por volta das três da tarde. A empregada entregava-lhe a lista dos clientes inscritos; e a romagem das misérias físicas, dos dramas encobertos, das enfermidades que se ostentam e das que se escondem, de toda a lama, mais ou menos perfumada, do Chiado, deslizava pelo seu gabinete de consulta, ao longo de quatro ou cinco fatigantes horas. Mas nem aí o telefone e os colegas o deixavam, num tumultuar de vidas em perigo, de gritos de socorro, de apelos lancinantes de mãos ou de noivas, num ulular de sofrimento contínuo, à margem ou a par daquele espraiar de queixas e de misérias burguesas que os «doentes com hora marcada» pormenorizada e fastidiosamente iam arrastando, na luz velada pelos vidros foscos, no ambiente morno de doenças e de seres catalogados. (...) Casara muito nova, casamento do agrado dos pais e também de sua escolha, embora não de paixão. Filha única, herdeira de uma esplêndida casa de lavoura e de prédios inúmeros na cidade, tivera o pai pressa em a arrumar com genro da sua preferência, temente aos que a rondavam na mira só da fortuna. Era a desconfiança o traço mais característico da maneira de ser do visconde; de tudo e de todos desconfiava, reduzindo a três ou quatro intímos o número de frequentadores da sua casa, a todos mais fechada, numa surda hostilidade de misantropo e de avaro. JOAQUIM PAÇO D'ARCOS*, In. O Caminho da Culpa *Foi presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, cargo que exercia aquando da sua extinção, em 1966, na sequência da atribuição do Prémio Camilo Castelo Branco a Luandino Vieira, que estava preso no Tarrafal. Joaquim Paço D'Arcos condenou a decisão do júri, colocando-se ao lado do regime ditatorial de Salazar, e colocando-se a si próprio contra a maioria dos escritores portugueses. Veio a sofrer outro tipo de censura, diferente daquela do regime salazarista, a do desprezo, da indiferença e do esquecimento. Estou em crer que, não fosse este episódio, e pese embora o seu pensamento político conservador e as suas ligações ao poder, seria hoje em dia um dos autores obrigatórios nos programas escolares.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Comissão de Liberdade Religiosa proselitista

A Comissão de Liberdade Religiosa, emanação da bem pouco republicana Lei da Liberdade Religiosa, pretende agora, aparentemente, vir a desempenhar estranhissimas funções na nossa sociedade: o seu presidente acaba de assumir publicamente que ela deveria fazer proselitismo religioso junto dos jovens universitários, um grupo social aparentemente muito desinteressado dessa coisa das crenças... A associação cívica República e Laicidade protestou, evidentemente, desse facto junto do Ministro da Justiça da República Portuguesa, nos termos e com os fundamentos seguintes Ver: aqui Saudações republicanas e laicas

terça-feira, 8 de maio de 2007

rascunho encontrado num caderno abandonado #37

Chamava-me, alguém, longe, distante, mas eu não respondi. Chamava-me, alguém, estranho, mas eu não quis ouvir. Pedia-me que ficásse, mas eu parti. Para ti. Pedia-me que regressásse, mas eu fiquei. Em ti. Pedia-me que reconsiderásse, mas eu fugi. Contigo... Prendi-me a ti. Prepetuamente te quis, à morte me condenei. Foste uma prisão sem paredes nem grades. E nem assim eu ousei evadir-me. E nem assim me quiseste... Ouvia dizer, por outras palavras, de outras pessoas, estranhas, que o teu coração me mentia, que o meu coração se deixava enganar, que tu nunca me amarias, que tu nunca me quiseste amar. Que o teu sorrido, que fazia bater o meu coração, que iluminava a minha alma na escuridão da noite, não era para mim, na verdade...
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rascunho encontrado num caderno abandonado #36

Os olhos que eu desejo
São os castanhos que vejo
Muito juntinho a mim,
Por isso me sinto assim:

Voa a negra ave presa
Por um fio de ouro,
Transporta a alma rúbea,
Suja, até ao castelo mouro...

Enfeita-se como marquesa
De verde, a minha tristeza,
E azul, branco, vermelho
E de amarelo-rúbeo-velho.

Na cama estendida é bela,
Sempre a sorrir, de preto
Pintada... De preto toda ela
Vagueando pelo castelo...

Não sei o que sinto!
Se calhar eu nem sinto!
Mas, muito junto a mim
Está por quem estou assim...

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