quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

o homem moderno*

Demora-se muito em Amsterdão? Linda cidade, não acha? Fascinante? Eis um adjectivo que não ouço há muito tempo. Precisamente desde que deixei Paris, já lá vão uns anos. Mas o coração tem a sua memória e eu nada esqueci da nossa bela capital, nem dos seus cais. Paris é uma autêntica ilusão de óptica, um imponente cenário habitado por quatro milhões de silhuetas. Perto de cinco milhões no último recenseamento? Está bem, devem ter feito meninos. Não me admiro. Sempre me pareceu que os nossos concidadãos tinham duas paixões violentas: as ideias e a fornicação. A torto e a direito, por assim dizer. De resto, evitemos condená-los; não são os únicos, e assim toda a Europa. Cismo, por vezes, no que dirão de nós os futuros historiadores. Bastar-lhes-á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Despois desta forte definição, o assunto ficará, se assim me posso exprimir, esgotado.
*Albert Camus, in A Queda (obra publicada em 1956). Post-Scriptum: Calhou a este post a contingência de ser o #888 a ser publicado neste blog. Número redondo e bonito.

1 comentário:

  1. Albert Camus foi um dos escritores da minha juventude; gostei de "A Queda", de "O Estrangeiro", mas o que me enchia a alma eram os "Cadernos", com aquelas frases curtas que me punham a pensar na Vida...
    Abraço

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