sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

máscaras*

Ah quantas máscaras e submáscaras
Usamos sobre a alma! E quando, a gosto,
A alma tira a última das máscaras,
Será que ela conhece o simples rosto?

A vera máscara não está por trás
Mas espreita por ela conivente.
O hábito aceite, sonolento faz
O que em qualquer começo, consciente.

Como a criança teme a própria face,
A nossa alma, criança também,
Julga ser de outro o rosto em seu disfarce

E um mundo lhe vem de se enganar;
E quando o pensar já despida a tem
Ela se mascara p'ra desmascarar.

 *Soneto VIII de 35 Sonetos, de Fernando Pessoa, originalmente publicado em Inglês [35 Sonnets], em Lisboa, 1918. Tradução de Luísa Freire, in Poesia Inglesa (I), Fernando Pessoa, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

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