sexta-feira, 1 de julho de 2011

Alice do Outro Lado do Espelho de Lewis Carroll

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- Tenho muito prazer em levar-te comigo! - disse a Rainha. - Pago-te dois vinténs por semana e geleia nos outros dias.
Alice não pode deixar de se rir ao responder:
- Eu não quero que me contrate... E não estou interessada na geleia.
- Mas a geleia é muito boa - disse a Rainha.
- Bem, mas de qualquer modo hoje não quero geleia.
- Mas não a terias mesmo que a quisesses - respondeu a Rainha. - A regra é: geleia amanhã e geleia ontem... Mas nunca geleia hoje.
- Mas de vez em quando tem de haver «geleia hoje» - objectou Alice.
- Não, não é possível - respondeu a Rainha.
- Só geleia nos outros dias. Hoje não é nos outros dias, percebes?
- Não a percebo. É tudo tão confuso! - disse Alice.
- É o resultado de viver para trás - afirmou a Rainha com delicadeza. - A princípio, fica-se sempre tonto...
- Viver para trás! - repetiu Alice muito admirada. - Nunca ouvi falar de tal coisa!
- ...Mas tem uma grande vantagem: é que a nossa memória funciona nos dois sentidos.
- Tenho a certeza de que a minha só funciona num sentido - replicou Alice. - Não posso lembrar-me das coisas antes delas acontecerem.
(...)
Oh, oh, oh! - gritava a Rainha, abanando a mão, como se quisesse que ela caísse. - O meu dedo está a deitar sangue! Oh, oh, oh!
De tal modo os seus gritos se assemelhavam ao silvo de uma máquina a vapor que Alice teve de tapar os ouvidos com as mãos.
- O que se passa? - perguntou, assim que teve oportunidade de fazer-se ouvir. - Espetou alguma coisa no dedo?
- Ainda não espetei nada - respondeu a Rainha -, mas daqui a pouco vou espetar... Oh, oh, oh!
- Quando espera que isso aconteça? - perguntou Alice, quase a desatar-se a rir.
- Quando eu apertar o xaile outra vez, o broche vai abrir-se - gemeu a pobre Rainha. - Oh, oh, oh!
No mesmo instante em que pronunciou estas palvras, o broche abriu-se e a Rainha apertou-o com força, tentando fechá-lo de novo.
- Tenha cuidado! - gritou Alice. - Está a entortá-lo!
E tentou agarrá-lo, mas era tarde demais: o alfinete soltou-se e a Rainha picou dedo.
- Isto é que provocou a hemorragia, percebes? - disse a Rainha a Alice com um sorriso. - Agora já percebes como é que as coisas se passam aqui.
- Mas por que não grita agora? - perguntou Alice, preparando-se para pôr de novo as mãos nos ouvidos.
- Ora, porque já gritei - respondeu a Rainha. - De que me serviria recomeçar?


Alice Liddell Lewis Carroll Alice no País das Maravilhas fotografia  
Lewis Carroll in. Alice do outro lado do espelho (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988, pp. 70-73).

Lewis Carrol, pseudónimo de Charles Lutwidge Dodgson, nasceu dia 27 de Janeiro de 1832 em Daresbury (Cheshire), Inglaterra. Foi o terceiro filho (de onze) do clérigo Charles Dodgson. Começou desde muito novo a fazer revistas para a família, onde fazia jogos de palavras, e onde se revelou igualmente o seu gosto pela Matemática. Entre 1846 e 1850 frequentou a Rugby School. Quatro anos depois, em 1854, formou-se no Christ Church College em Oxford, e um ano depois foi nomeado professor de Matemática, cargou que exerceu até 1881.

Entre outras obras, neste período escreveu Guia da Geometria Algébrica Elementar e As Fórmulas da Trigonometria Elementar. O mais importante dos vários tratados de Matemática que escreveu foi a sua defesa de Euclides, Euclid and His Modern Rivals, em 1879. Antes, em 1861, Charles Dodgson foi ordenado diácono em 1861, mas nunca optou pelo sacerdócio. Paralelamente, a sua carreira literária inicia-se na revista The Train, editada por Edmund Yeats, que escolheu Lewis Carroll entre quatro propostas de pseudónimo apresentadas por Dodgson. Lewis deriva do seu segundo nome Lutwidge, e Carroll de Charles. Nesta revista Carroll publicou poemas.

A sua obra mais conhecida Alice no País das Maravilhas foi publicada em 1865, e teve origem numa viagem de barco que Dodgson fez com as jovens raparigas Lorina, Alice e Edith, filhas do deão da Christ Church, Henry Liddell. Foi para Alice que Carroll ampliou a história improvisada, dando-lhe a forma de livro. Em 1871 publicou Alice do outro lado do espelho, a continuação de Alice no País das Maravilhas. Ambas as obras foram ilustradas por Sir John Tenniel. Publicou ainda Phantasmagoria and Other Poems (1869), A Caça ao Snark (1876) e Sylvie e Bruno (1889 e 1893 - esta obra está dividida em dois volumes: Sylvie e Bruno e Conclusão de Sylvie e Bruno).

As obras de Lewis Carroll viriam a influenciar artistas surrealistas, como André Breton, Antonin Artaud e Salvador Dalí. Aquando a publicação de Alice no País das Maravilhas, obra que teve sucesso imediato, a rainha Vitória chamou Lewis Carroll à sua presença; após ter-lhe dito que gostara muito de ler o seu livro, pergunta-lhe se já escrevera mais algum antes. Carroll responde afirmativamente. A rainha diz então que quer lê-los a todos, e pede que lhe envie um exemplar de cada. No dia seguinte Lewis Carroll faz chegar ao Palácio de Buckingham uma enorme encomenda: todos os tratados matemáticos escritos até então pelo reverendo Charles Lutwidge Dodgson.

Lewis Carroll morreu dia 14 de Janeiro de 1898, em Guildford.

Podem ler o artigo wikipédia se quiserem saber mais sobre Lewis Carroll. E todas as suas obras, claro! Agora não se metam a ler os tratados matemáticos; ainda que sejam excelentes obras, lembrem-se que não são de Lewis Carroll, mas de Charles Lutwidge Dodgson...

Ao cimo: Fotografia de Lewis Carroll; Ao meio: Alice Liddell, fotografada por Lewis Carroll - a menina que inspirou a personagem Alice.

*quinto post da série "escritores do meu panteão": o primeiro pode ser lido aqui, o segundo pode ser lido aqui, o terceiro pode ser lido aqui, o quarto pode ser lido aqui

Podem encontrar-me no meu novo blog: Ainda que os Amantes se Percam

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