sexta-feira, 1 de julho de 2011

Queer de William Burroughs

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O rapaz era louro, de rosto magro e fino, sardento, sempre um pouco rosado à volta das orelhas e no nariz, como se tivesse acabado de se lavar. Lee nunca tinha conhecido ninguém com ar tão limpo como Carl. (p. 27) Moor era um rapaz louro e magro que, habitualmente, era um pouco lento. Tinha olhos azul-claros e pele muito branca. (...) Parecia uma criança, mas, ao mesmo tempo, um homem prematuramente envelhecido. (p. 31) - O que há? - Perguntou Lee. - Não muita coisa. Excepto que alguém roubou a minha máquina de escrever. Sei quem ma roubou. Foi aquele brasileiro ou o que quer que ele é. Tu conheces... o Maurice. - Maurice? Aquele com quem andaste a semana passada? O lutador? - Esse é o Louie, o professor de ginástica. Não, este é outro. O Louie decidiu que todo este género de coisas é muito mau e disse-me que eu vou parar ao inferno, mas que ele vai para o céu. (pp. 37-38) Lee tirou-lhe os sapatos e as meias. Desapertou-lhe o cinto e desabotoou-lhe as calças. Allerton arqueou o corpo e Lee puxou-lhe as calças e as cuecas. Tirou as suas próprias calças e cuecas e deitou-se ao lado de Allerton. Allerton reagiu sem hostilidade nem repugnância, mas Lee apercebeu-se de uma curiosa indiferença reflectida nos seus olhos, a calma impessoal de um animal ou de uma criança. (p. 67) Obrigou-se a aceitar os factos. Allerton não era suficientemente homossexual para tornar possível uma relação recíproca. A afeição que sentia por ele irritava-o. Como muita gente sem nada para fazer, ressentia-se quando lhe roubavam tempo. Não tinha amigos íntimos. Detestava encontros marcados com antecedência. Não gostava de sentir que alguém esperava algo dele. Queria, tanto quanto possível, viver sem presões exteriores. (p. 80)

William Burroughs, in. Queer. (Casa das Letras, 2005). William Seward Burroughs nasceu em St. Louis, Missuri, em 1914. Licenciou-se em Literatura na Universidade de Harvard. Foi empregado de bar, jornalista, detective privado. Foi viciado em morfina. No final dos anos 40 mudou-se para o México acompanhado pela mulher. Matou a mulher, num acidente, em 1951, altura em que escreveu Queer, que, no entanto, só viria a ser publicado mais de 30 anos depois, em 1986. Na sequência da morte da mulher, mudou-se para Tânger (Marrocos); das suas vivências nesta cidade do norte de África, resultou aquela que é, talvez, a sua obra mais conhecida: Naked Lunch (Festim Nu), publicada em França, em 1959, só pode ser publicada nos Estados Unidos em 1962 e em Inglaterra em 1964. Durante longos anos foi considerado um escritor impublicável, devido à sua escrita nua, e que causava polémica - era uma escrita influenciada pelas técnicas experimentais de James Joyce e T. S. Eliot -, ainda assim exerceu grande influência na geração Beat, durante os anos 50, nomeadamente em Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Décadas mais tarde foi eleito membro da Academia Americana e do Instituto de Artes e Letras. Morreu em 1997. Tinha 83 anos. Norman Mailer afirmou que Burroughs era «o único romancista americano possuído pelo génio.» Pelo génio, pelas drogas, pela depressão e pela loucura. *primeiro post da série "escritores do meu panteão"

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