sexta-feira, 1 de julho de 2011

Pena Capital de Mário Cesariny

Mário Cesariny poeta pintor  
poema  

Tu estás em mim como eu estive no berço  
como a árvore sob a sua crosta  
como o navio no fundo do mar

  O Operário Mário Cesariny pintura

"poema" - Mário Cesariny, in. Pena Capital (Assírio & Alvim, 2004, 3.ª edição, aumentada).

Ao cimo:

Fotografia de Mário Cesariny.

Quadro: O Operário (1974), pintura de Mário Cesariny.  


Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu em Lisboa, a 9 de Agosto de 1923, e morreu na mesma cidade, a 26 de Novembro de 2006. Foi pintor e poeta, e é considerado uma das mais importantes, senão a mais importante, figura do Surrealismo Português. Em Lisboa viveu quase toda a sua vida, exceputando cerca de sete anos em Londres, na década de sessenta e algumas passagens por Paris, cidades para onde fugia quando se sentia mais acossado pela Polícia Judiciária e PIDE, que o consideravam um vagabundo e o tinham sobre constante suspeita.

Disse, na sua última entrevista, ao semanário Sol, dia 07/10/2006: Agora vivo num deserto. Tenho alguns amigos, muito poucos. Mas realmente não há onde ir, em Lisboa. Quer dizer, para mim, porque a gente mais nova junta-se nos pubs, com a música muito alta, para não terem de falar eles. Nem falar, nem pensar. Na juventude frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e estudou música com o compositor Fernando Lopes Graça, às escondidas do pai, que queria que fosse ourives e não suportava ouvi-lo (vê-lo) tocar piano.

Em 1947, em Paris, frequenta a Academia de La Grande Chaumière. Também em Paris, conhece André Breton; a propósito deste encontro conta na mesma entrevista: Fui a casa dele, bati à porta e ninguém respondeu. Ele tinha um letreiro à porta a dizer: "Não quero entrevistas, não quero isto, não quero aquilo". Eu deixei lá um papel: "Não quero entrevistas, não quero isto, não quero aquilo. Quero falar consigo". Após este encontro, cria o Grupo Surrealista de Lisboa, juntamente com António Pedro, José Augusto França, Cândido Costa Pinto, Vespeira, Moniz Pereira e Alexandre O´Neill. Era um grupo que tinha como principais motivações o protesto contra o regime político vigente e contra o neo-realismo.

Mais tarde distancia-se deste grupo e funda um grupo chamado Os Surrealistas do qual fazem parte entre outros Virgílio Martinho, Herberto Helder, António Quadros, M.S.Lourenço, Nicolau Saião, Mário Botas, Hermínio Monteiro e Miguel de Castro Henriques.

Na sua obra poética deixou-nos, entre outros, os seguintes títulos: Corpo Visível, Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano, Manual de Prestidigitação, Pena Capital, Alguns Mitos Maiores e Alguns Mitos Menores Postos à Circulação pelo Autor, Nobilíssima Visão, Um Auto para Jerusalém, Titânia e A Cidade Queimada, As Mãos na Água e na Cabeça, Burlescas, Teóricas e Sentimentais, Primavera Autónoma das Estradas e O Virgem Negra.

Questionado sobre a sua crença na imortalidade (na mesma entrevista), respondeu: Não sei. Quando lá chegar, eu telefono... E riu-se. Não sei, mas talvez sejam estas as suas últimas palavras registadas. Ainda não telefonou, não acredito que algum dia telefone. Acredito que o seu nome e a sua obra viverão até que a espécie a que se chama Homem se extinga; e um dia irão ter com(o) ele - o mesmo destino que tudo que a sombra negra toca tem...  

 *quarto post da série "escritores do meu panteão": o primeiro pode ser lido aqui, o segundo pode ser lido aqui, o terceiro pode ser lido aqui.

Podem encontrar-me no meu novo blog: Ainda que os Amantes se Percam

8 comentários:

  1. Hoje espero ver muitas homenagens por essa blogosfera fora. O Cesariny foi grande na sua arte e e estou certo que a obra ficará mesmo até depois da extinção da espécie humana. Ficarão livros, filmes, músicas para que outra forma de vida inteligente os possa apreciar.
    Um abraço

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  2. Aprendo sempre algo novo quando venho ao teu blog! Obrigada por partilhares os teu conhecimentos connosco! A verdade é que às vezes a correria do dia-a-dia não nos deixa tempo (ou esta serve de desculpa) para ler tanto quanto gostaria! Encontro-me muitas vezes a deliciar-me com os teus textos e poemas.
    Obrigada*
    Beijo grande e vê lá se ganhas vergonha e vens visitar os amigos :)

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  3. Devia ser um cara legal, tinha bom humor! Vou procurar por seus escritos. Beijus

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  4. Olá k. Não sou tão optimista quanto tu, acho que a bomba atómica ou outra qualquer, acabarão por desfazer este planeta por completo... mas isso é outra história, e talvez já cá não andemos... Abraço.

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  5. Rita, beijinho enorme amiguinha. Entre muitas coisas que infelizmente sou, algumas mais que outras, algumas mais dolorosamente que outras, algumas por razões intrínsecas, outras por razões extrínsecas, sou um sem-vergonha, um desavergonhado...

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  6. olá luma. Será uma descoberta maravilhosa! Beijinho.

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  7. Caro André
    tinha o meu blog acabado de dar os primeiros passos quando o M.Cesariny nos deixou; foi o primeiro de uma lista infelizmente grande. Na altura dei-lhe o relevo merecido com a elaboração de vários posts que incidiam sobre a opinião de diferentes pessoas de áreas várias sobre esse homem que teve a loucura suficiente para ser lúcido num país de loucos; hoje não posso deixar de me congratular com esta tua mais que merecida referência.
    Abraço.

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  8. E ainda assim, pinguim, ele atravessou a vida, a literatura, a poesia e a pintura, como um vagabundo, neste país mesquinho...

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