quarta-feira, 14 de novembro de 2007

em memória do meu pai

Já era noite. Talvez sete, ou oito, ou mesmo nove horas da noite. Talvez fosse mais tarde. Na memória resta-me apenas o frio, o escuro e o último olhar. Agarrei-lhe o tecido das calças, e abraçei-o pela cintura. Tocou-me na cabeça e disse que não podia ficar. Nunca fui pessoa de insistir. Mas insisti. Uma, duas ou três vezes. Talvez mais. Voltei para junto da minha mãe, e da minha tia. Ele afastou-se alguns passos. Olhou para nós, aquele último olhar que me resta na memória. Ou talvez já nem seja esse último olhar, não sei. Virou-se e caminhou lentamente, subindo a rua empedrada. Uma lágrima queria sair-me dos olhos, mas eu não deixei. Queria que ele ficasse, a minha mãe insistira. Eu também. A minha tia aconselhara-o igualmente a ficar. Ele disse que não, que não podia ficar. Já era noite.
Acordei, à pressa vesti-me, empurrei os cadernos, os lápis e borrachas, os livros, a tralha para dentro da mochila vermelha. Ainda anda aí por um canto. Uma prima minha oferecera-ma. Era vermelha e branca, e no bolso de fora tinha escrito, a letras garrafais, vermelhas e maiúsculas, QUEEN. O nome da banda de Freddie Mercury, Roger Taylor, Brian May e John Deacon. Comi pão migado em leite com café. Era sempre o meu pequeno-almoço. Por nada deste mundo aceitava outro. Tinha que ser pão migado em leite com café, na minha tigela preferida. A tigela partiu-se meses, ou anos, depois. Anos depois a minha avó, que me dera aquela, deu-me outra igual. Ela não sabia, mas tinha pintado o desenho de um boneco animado de uma série alemã, ou talvez austríaca, que eu via todos os dias na televisão. A televisão era a preto-e-branco, comprada pouco tempo depois de eu ter nascido. Mas ali o boneco era a cores. O cabelo e o nariz são vermelhos, a t-shirt é amarela e as calças são verdes. Não sei se na televisão as cores do boneco eram as mesmas, mas a tigela está aqui para comprovar a minha memória. Acabei de comer, despedi-me da minha mãe e corri para a escola. Não era que tivesse muita vontade de ir para a escola; fugia do frio da rua. dog farrusco lassie cão paisagem criança boy rapaz preto e branco infância memória Ia a manhã a meio quando a minha vizinha veio ter comigo à escola. Bateu à porta, a professora calou-se, a sala ficou imersa no nosso silêncio. A professora foi abrir a porta. O silêncio dera lugar ao barulho. A professora conversava com a minha vizinha. Ela apontava para mim, queria falar comigo, mas não queria dizer o que se passava. A professora não a queria deixar entrar, mas ela insistia. E quando a minha vizinha insistia, não havia nada que a demovesse. A professora teve que aceitar, resignada. Ela chegou-se à minha beira e disse-me, depois de me agarrar, me fazer uma festa na cabeça, com os olhos vermelhos de lágrimas que tentava segurar nos olhos, directa ao assunto, sem meias palavras, que ela não sabia muitas, havia quem a achasse louca, porque era gaga e tinha dificuldades em exprimir-se: o teu pai morreu. Levou-me com ela para fora da sala. Foi falar à professora, trouxe a minha mochila, e fomos para minha casa. A minha mãe não estava. Aos poucos chegaram alguns familiares. Ninguém sabia como dizer-me; houve até quem tentasse mentir-me, dizendo-me que o meu pai estava muito mal no hospital, que ainda não se sabia nada, que estavam à espera que a minha mãe chegasse. Eu até queria acreditar nisso, mas eu já sabia. Não chorei. Nunca, em toda a minha vida, chorei no momento, na hora. Às vezes choro uma semana depois, outras meses, algumas anos depois. Nunca chorei de dor, de saudade, de pena ou alegria. Há quem me ache frio por isso. Quando choro é raiva. Raiva por me sentir impotente. Choro de raiva, quando finalmente admito que nada posso fazer, nem mesmo chorar, por isso choro, mas choro pouco. Depois chorei, sozinho. Dois ou três dias após o meu pai estar enterrado. De raiva, como quem dá um murro decima de uma mesa. Ele subiu a rua empedrada. Estava uma noite escura e fria. Ainda olhou para trás uma última vez, o último olhar que recordo, subiu para o tractor e partiu. Dez, ou quinze, ou mesmo vinte minutos depois estava morto. Estávamos no dia 14 de Novembro de 1988. Passaram dezanove anos.

30 comentários:

  1. Que bela homenagem, ainda que carregada dor; ou de raiva como você diz.
    Também sinto saudades do meu pai, mas não tenho nem raiva, nem dor, somente um lamento pelo que não pode ser.
    Você me troxe muitas lembranças e uma vontade danada de fazer algo sobre o assunto.
    Beijos!

    ResponderEliminar
  2. não sei, não posso, nem consigo dizer o que quer que seja, mas.

    ResponderEliminar
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  4. hmmm he looks more like christopher reeves you know ...

    ResponderEliminar
  5. Nem sempre o choro se revela em lágrimas... nestas palavras transmitiste as tuas emoções!
    É bom recordar, pois a recordação vai-nos ensinar a lidar com a dor...
    É bom libertar e transformar a força de um grito que queremos dar, num belo texto, como tão bem sabes fazer, como este que acabei de ler!! beijo **

    ResponderEliminar
  6. nao sei o que diga... gostava imenso de me lembrar de um sorriso, de um abraço ou simplesmente da voz, mas na realidade nao me lembro de nada... do pouco que sei do pai devo-o a ti! tinha 2anos... obrigado mano pela homenagem...

    ResponderEliminar
  7. Uiiii.
    É forte, a memória. Também o teu texto. Trouxe-me memórias e ainda me lembra a ferida no peito :(
    Também não chorei quando soube. Nem quando o vi. Mas depois rebentei. Por tudo o que não dissemos um ao outro e por imaginar a ausência.

    ResponderEliminar
  8. E, no entanto, aprendeste a transformar a dor em beleza que é coisa rara e inspiradora.

    Um grande abraço!

    ResponderEliminar
  9. Olá Debora,

    obrigado pela visita e pelo comentário; espero, então, que escrevas alguma coisa.

    Beijo.

    ResponderEliminar
  10. olá af,

    obrigado pelo comentário. fica o registo. abraço

    ResponderEliminar
  11. hi dw,

    You're probably right... the photo were taken when christopher reeves was the star...

    ResponderEliminar
  12. olá rita,

    obrigado pelo comentário; já tinha saudades dos teus comentários... beijinhos.

    ResponderEliminar
  13. olá manita,

    sim, tu não te recordas de nada... eras muito piquinina! beijinhos de Portugal. Espero que esteja tudo bem.

    ResponderEliminar
  14. olá Paulo,

    sempre tive uma memória que não me larga. às vezes gostava de não ter uma memória assim... abraço

    ResponderEliminar
  15. olá mda,

    achas?

    aquele grande abraço, amigo.

    ResponderEliminar
  16. Olá André foi uma homenagem bastante tocante. A morte de um pai é algo que nos marca sempre, principalmente quando somos jovens.
    A história da tigela também me recordou a minha infância pois o pequeno-almoço habitual em casa dos meus avós era exactamente pão migado em leite com café.
    Um abraço

    ResponderEliminar
  17. Olá Special K,

    Ainda não consegui descobrir, relativamente à tigela, qual era a série... Por causa de uma outra tigela, que parti - parti muitas - tenhi hoje uma cicatriz na mão direita que não me permite abrir completamente o dedo grande (que raios, não me lembra o nome da porra do dedo)... memórias...

    obrigado pelo comentário,

    Abraço

    ResponderEliminar
  18. Escreves com dor. Sentimo-la. Às vezes espero que a escrita seja efectivamente terapêutica. Todos temos memórias que nos marcaram e para as quais nunca encontrámos consolo. Mas que bom lembrares o tecido das calças e o abraço pela cintura.

    Deixo-te um abraço grande

    ResponderEliminar
  19. olá mrf,

    sim, há memórias para as quais não há consolo possível... ou aprendemos a viver com elas, a lidar com elas, ou não... julgo que sempre lidei bem com a perca do meu pai... era muito novo; não tinha verdadeira noção do seu significado... para mim sempre foi mais difícil lidar com as "mortes" que não são físicas, mas quem por o não serem magoam mais... porque ficamos sempre com a ideia que ainda seria possível voltar atrás...

    Obrigado pelo comentário. Um grande abraço.

    ResponderEliminar
  20. Passados escassos 6 meses de teres perdido o teu Pai, eu perdi o meu; diz-se que o tempo tudo apaga; não é verdade, pois este teu belìssimo texto é disso prova.
    Um abraço muito solidário para ti, André.

    ResponderEliminar
  21. Pois... nem sei o que dizer. Como porventura saberás, também perdi um "pai" na minha infância: o meu avô. Digo "pai" porque, na realidade, era ele que me acompanhava no dia-a-dia, que me ensinava a andar de bicicleta, que me ensinava as "manhas da bola", que me levava de bicicleta para as aulas de música, enquanto o meu pai, apesar de nunca se afastar sentimentalmente, não estava ali ao meu lado, não o podia sentir no dia-a-dia, pois trabalhava noutra cidade.

    Não querendo comparar experiências, acho que a minha cicatriz me permite imaginar o tamanho da tua. E também eu sei como estas memórias nos marcam e voltam quando menos se espera. Lembro-me que na faculdade, numa qualquer cadeira desinteressante, tivémos que descrever sobre um episódio marcante na nossa vida e, sem hesitar e duma penada, escrevi um texto que apesar de estar longe da beleza do teu traduzia essencialmente o mesmo sentimento de perda. E não me esqueço do momento em que fui com o meu irmão pela primeira vez ao cemitério e à campa do meu avô, em que das palavras inocentes do meu irmão, qualquer coisa como "olá avô... sou o Miguel e estou aqui ao pé de ti", resultou um momento de inconsolável tristeza...

    Enfim... um abraço, amigo...

    ResponderEliminar
  22. obrigado amigo samuka, pelo teu comentário, e pela partilha da tua história. Julgo que no momento de doer, todas as dores são iguais... Ainda que umas venham de repente, outras de mansinho, ainda que umas desaparecam, outras insistam em manter-se... Abraço.

    ResponderEliminar
  23. achei muito bonito a forma como expoes a tua dor, mas o q realmente me parece bom é a propria exposiçao, a forma é secundária.
    Esta dor nao acaba, estará sempre connosco, com o tempo vai-se transformando e transformando-nos para o bom e para o mau. Apesar do tempo ainda aprendo diariamente a conviver com ela. Apesar de ainda nao saber/conseguir falar abertamente disso, considero que ja estou consideravelmente melhor que ha uns anos atrás, em que entao nem a este post teria comentado. Mas tambem sei que era ha anos atras que tais conversas me marcavam e de certa forma aliviavam a dor guardada dentro.
    Sem mais, grande abraço para ti e obrigado pelo belo exemplo de abertura e saudade que é este texto.

    ResponderEliminar
  24. olá Calado, bela surpresa este teu comentário. Concerteza um dia conseguirás falar abertamente sobre essa dor. Toda a dor partilhada é uma dor dividida; de cada vez que partilhares a tua dor, estarás também a dividi-la, e assim será cada vez menor. Abraço.

    ResponderEliminar
  25. Olá André,
    Fiquei tocado por esta tua homenagem ao teu pai. Acredito que deves ter sofrido muito, até porque, por aquilo que narras, eras um miúdo quando essa tragédia aconteceu.
    Eu também não chorei quando o meu pai morreu. Nem tão pouco quando o vi descer à terra.

    Eu perdi o meu pai já adulto. Foi um momento difícil. Ainda hoje, passados tantos anos, não gosto de relembrar o contexto da doença e da morte. Só me recordo, como se fosse hoje, o olhar terno que ele me lançou e a promessa que me fez: até amanhã!
    Esse amanhã realizar-se-á quando eu o voltar a reencontrar.

    Abraço:)

    ResponderEliminar
  26. Lamento... e fico feliz por amanhã ou depois (ainda) poder ir ver o meu.

    Que sejas compensado de alguma outra forma. Que sejas feliz!

    Beiji**

    ResponderEliminar
  27. Beijo, André. Deixam-nos uma saudade terrível.

    ResponderEliminar

Deixe o seu comentário. Tentarei responder a todos. Obrigado