sexta-feira, 1 de julho de 2011

Confissões de uma Máscara de Yukio Mishima

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Quando um rapaz de catorze ou quinze anos descobre que a sua inclinação para a introspecção e a análise de si próprio é mais nítida que nos rapazes da sua idade, é invitável a tentação de pensar que é mais maduro do que eles. No meu caso, um tal raciocínio era completamente errado. Na realidade, os outros rapazes não sentiam a necessidade de se compreenderem, porque podiam ser naturais, enquanto eu tinha que desempenhar um papel, o que exigia uma atenção e um discernimento consideráveis. Da mesma forma, não era a minha maturidade de espírito, mas o meu sentimento de mal-estar e a minha incerteza, que me obrigavam a exercer vigilância sobre o meu eu consciente. Porque uma tal consciência de mim era apenas um passo para a aberração e a minha maneira de pensar actual tão-só a expressão de uma conjectura incerta e aleatória. (p. 114) Nessa noite, depois de chegar à nossa casa dos arredores, comecei, pela primeira vez na minha vida, a encarar seriamente a hipótese de me suicidar. Mas, pensando bem, esta ideia pareceu-me extremamente enfadonha e acabei por decidir que seri um acto profundamente ridículo. Por disposição natural, tinha sempre relutância em dar-me por vencido. Além do mais, disse para comigo, é inútil ser eu a cometer esse acto decisivo, com tantas maneiras de morrer aqui mesmo, à minha volta: a morte durante um raid aéreo, a morte no meu posto, a morte no serviço militar, a morte no campo de batalha, a morte num desastre de automóvel, a morte por doença. Era indubitável que o meu nome já estava inscrito numa dessas listas; e um condenado à morte não se suicida. Não, qualquer que fosse o ângulo de abordagem, não me parecia que os tempos estivessem para suicídios. Seria melhor que algo me fizesse o favor de acabar comigo. O que, em última análise, é o mesmo que dizer que estava à espera que algo me fizesse o favor de me manter vivo. (p. 207)

Yukio Mishima, in. Confissões de uma Máscara. (Assírio & Alvim, 1995, 3.ª edição, tradução do inglês por António Mega Ferreira). Yukio Mishima nasceu em Tokyo, a 14 de Janeiro de 1925, filho de um oficial do governo; o nome escolhido foi Kimitaka Hiraoka; anos mais tarde, aquando da publicação dos seus primeiros trabalhos, escolheu o nome Yukio Mishima, para que o seu pai, homem profundamente anti-literário, não soubesse que ele escrevia. Mishima foi criado principalmente pela sua avó paterna, que o mantinha sobre vigilância apertada. Durante a Segunda Grande Guerra Mishima escapou ao serviço militar, embora tenha servido numa fábrica; este acontecimento perseguiu-o até ao final da vida, pois considerava que tinha sobrevivido vergonhosamente, enquanto muitos outros tinham sido mortos. Depois da guerra, estudou direito na Universidade de Tokyo. Trabalhou como servente no ministério das finanças durante um ano, antes de se dedicar exclusivamente à escrita. Por esta altura, em 1946, conheceu Kawabata Yasunari, que viria a ganhar o Prémio Nobel da Literatura, em 1968, quando muitos apontavam o próprio Mishima. Foi Yasunari quem recomendou os trabalhos de Mishima para algumas das mais importantes revistas literárias da época, no Japão. Yukio Mishima Kishin Shinoyama São Sebastião literatura livros fotografia photo literatureO seu primeiro trabalho de grande fôlego foi Confissões de uma Máscara, publicado em 1949, onde reflecte sobre a descoberta da sua homossexualidade. O narrador conclui que tem que usar a máscara da "normalidade" perante as outras pessoas, para se proteger do escárnio social. Esta obra transmite também as fantasias sado-masoquistas de Mishima. A sua constante preocupação com o corpo, a sua beleza e envelhecimento, prepassam por muitas das suas obras posteriores. Mishima queria construir um corpo perfeito que a idade não pudesse tornar feio, tendo começado a praticar vários desportos e artes marciais, como o karate e o kendo, em 1955, ano em que também começou a fazer-se fotografar em posses imitando a morte de S. Sebastião (mártire do cânone católico que era homossexual), trespassado de flechas. Na manhã do dia 25 de Novembro de 1970, com 45 anos de idade, Mishima entrou nos quartéis de Ichigaya, acompanhado de quatro soldados da sua confiança, escolhidos de um exército privado que fundara cerca de dois anos antes, e que tinha cerca de 100 elemantos. Eram onze da manhã. Uma hora antes havia telefonado a repórteres seus amigos para que estivessem presentes. Da varanda dos quartéis, Mishima leu o seu Manifesto, em que incitava os soldados a revoltarem-se e lutarem para salvar o Japão, mas a maioria não lhe deu ouvidos, e os poucos que lhe prestaram atenção, injuriaram-no. Depois de gritar três vezes «Longa vida a Sua Magestade, o Imperador», Mishima cometeu seppuku, no escritório do general Kanetoshi Mashita. Eram 12:15. Para completar o ritual, Morita, o seu escolhido, e com quem se diz mantinha uma relação de carácter sexual, devia cortar-lhe a cabeça. Tentou três vezes, mas foi incapaz. Foi Hiroyasu Koga quem completou o ritual. Morita tentou de seguida praticar o mesmo ritual (seppuku); apesar de o corte que efectou - que consiste em auto-esventrar-se com uma espada - ser demasiado superficial para que fosse fatal, ao seu sinal Koga decapitou-o, tal como fizera a Mishima. A propósito da morte de Mishima, Marguerite Yourcenar escreveu (Mishima: A Vision of the Void) que "Recordemo-nos que a realidade deve ser absorvida no trabalho do escritor: é aquilo que o escritor escolhe para escrever, ou é compelido a escrever, que é importante. E certamente, a morte cuidadosamente premeditada de Mishima, é uma parte do seu trabalho" Apesar de ser homossexual, Mishima casou em 1958 com Yoko Sugiyama, de quem viria a ter dois filhos. O casamento foi orquestrado provavelmente para satisfazer o desejo da mãe, que estava gravemente doente, com um cancro. No entanto, a mãe viria a morrer após Mishima. Mishima tratava a mulher com muito mais consideração e ternura que a maioria dos homens do seu tempo, tendo viajado com ela à volta do mundo. Em 1985 um filme biográfico sobre Mishima, em que se mostram imagens do escritor num bar gay no Japão, de Paul Schrader, é proibido no Japão. A homossexualidade de Yukio Mishima continua, actualmente, a não ser oficialmente aceite no Japão, tendo sido proibidas diversas exposições e trabalhos sobre o tema. Desde a publicação, em 1949, de Confissões de uma Máscara, até à sua morte, Mishima escreveu cerca de 40 novelas e romances, poesia, ensaios, dramas Noh e Kabuki modernos. Além de Confissões de uma Máscara, entre as suas obras mais conhecidas e consideradas mais importantes, encontram-se O Templo Dourado, O Tumulto das Ondas, que foi por diversas vezes adapatado ao cinema, com participações do próprio Mishima, O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, Forbidden Colors (Les Amours Interdites, em francês - sei que há uma tradução no Brasil, mas não sei qual foi o título adoptado; não sei se existe alguma tradução em Portugal - numa das muitas vezes em que foi "apanhado" em bares gay, Yukio Mishima desculpou-se afirmando que estava a recolher material para um trabalho - este), e a tetralogia Mar da Fertilidade, (Neve de Primavera, Cavalos em Fuga, O Templo da Aurora, e A Ruína do Anjo) cujo último volume foi enviado ao seu editor na manhã em que cometeu seppuku e foi publicado postumamente.
A vida humana é limitada, mas eu gostava de viver para sempre.
(Nota deixada sobre a secretária, a 25 de Novembro de 1970, antes de sair de casa pela última vez.)
Foto ao cimo: Yukio Mishima, fotografado por Eiko Hosoe, em 1970, para um trabalho intitulado Torture By Roses. Foto ao centro: Yukio Mishima, fotografado por Kishin Shinoyama, em 1968; trabalho intitulado São Sebastião. *segundo post da série "escritores do meu panteão"; o primeiro pode ser lido aqui.

4 comentários:

  1. Bela homenagem a Mishima, um dos grandes escritores homossexuais do século XX.
    Abraço.

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  2. Por mais que me esforçe, não consigo compreender os japoneses! Raios partam o Mishima, mais a porcaria do seppuku, do hitler, do patriotismo, do código de honra... 45 anos! Enfim, foi-se o homem, ficou a obra... abraço.

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  3. Embora já tenha lido umas coisitas "sobre" Mishima, confesso que o único texto "dele" que me lembro de ter lido é um ensaio sobre Genet, publicado num volumezito pequenino da Hiena, a acompanhar o poema "O condenado à morte"... do Genet. Tenho de reparar esta lacuna...:)
    Abraço

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  4. olá Maurice; Yukio Mishima é um grande escritor, e um homem cujos traumas e desejos insatisfeitos levou ao seppuku - do mesmo modo que outros foram levados à loucura - ou a outros lugares piores... Apesar de algumas ideias que, quando confrontadas com a sua obra, parecem simplesmente absurdas, ele era nesse aspecto inofensivo - tão inofensivo que, ele que fora tantas vezes aplaudido, acabou a vida injuriado... Abraço

    Recomendo vivamente, embora actualmente seja muito difícil encontrar os seus livros... A tetralogia Mar da Fertilidade (publicada em Portugal pela Editorial Presença) encontra-se esgotada - pode haver ainda exemplares em algumas livrarias, como eu encontrei - e não se prevê nova reedição - como me informaram os responsáveis da editora a quem contactei para tentar arranjar os volumes que me faltam (embora já tenha lido em bibliotecas públicas, gostaria imenso de ter os livros)... Abraço

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