segunda-feira, 7 de maio de 2007

em dias como este em que sinto uma nostalgia eterna

As pessoas que amei morreram é um facto
As pessoas que amei já não estão vivas
Só para os necrófilos que insistem em mantê-las vivas onde têm tudo morto
Mas isso não me importa nem ninguém me importa
Porque o resto do mundo são apenas transeuntes
Ocasionalmente cruzando-se comigo por se cruzarem
Como ocasionalmente chove ou ocasionalmente neva
Ou ocasionalmente cai um avião em qualquer parte do mundo
Ou quem sabe voa em direcção ao infinito
Mas isso não me importa nem nada me importa
Porque o que sobra em mim são apenas pessoas
Ocasionalmente mortas por ocasionalmente terem morrido
Como os mortos aos montes ou os mortos aos pontapés
Que na minha alma vazia espaço dos meus amantes
Seres etéreos seres efémeros deixaram vaga

Por isso em dias como este ando distraído
Cruzando-me comigo por acaso me cruzar
E só depois reparando que comigo me cruzei
Quando já vou longe e se me chamo já não me posso ouvir

Isto porque vou a cismar no corpo de um amigo que ali jaze
Um pouco à frente do lugar onde jaze o corpo de uma amiga
E só paro para me chamar quando chego ao lugar onde eu ia a enterrar
Se tivesse reparado em mim a tempo de me poder chamar

Agora já não há nada a fazer
Já não há nada apenas o resto de o ter havido
A sombra de um pecado que não foi cometido



FÁBIO TOMMASINI, Poema escrito a meu pedido, para a epígrafe de Os Cadernos Secretos de Sébastian

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