terça-feira, 22 de maio de 2007

Como o tempo passa*

Não há um ano que passe sem se inventar um cronómetro mais complicado e capaz de medir o tempo com cada vez maior minúcia. São máquinas invejáveis que apetece ter no pulso, acompanhando a nossa vida como um segundo coração. Na verdade, não consigo pôr o meu relógio sem me lembrar do despertador que eu e os meus irmãos escondíamos debaixo dos cobertores dos gatinhos recém-nascidos, mas órfãos, para que pensassem que era o coração da mãe deles a bater. É por isso legítimo que anseie ainda estar vivo quando algum mestre-relojoeiro de Genebra, porventura iluminado por umas luzes de metafísica, seja capaz de criar um cronómetro que meça não só o tempo físico como o tempo real. Um minuto debaixo da broca do dentista ou numa montanha-russa são horas; uma hora a fazer amor ou a ler um bom livro são segundos; um dia, quando se tem seis anos, são meses; um ano, quando se tem mais de trinta anos, é uma semana: é mais do que sabido que o tempo, tal como o sentimos, não é o mesmo que medem as máquinas. (...) MIGUEL ESTEVES CARDOSO, In. A Minha Andorinha *Título do Autor

Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixe o seu comentário. Tentarei responder a todos. Obrigado