quinta-feira, 10 de maio de 2007

Casara com a filha dum seu antigo professor, de quem herdou, assim, a clínica e a fortuna. A mulher dera-lhe filhos, que já iam pelos estudos fora, espigando e mostrando, na viveza intelectual, a boa cepa dos pais. Cinco vezes por semana, intervaladas pelas quintas-feiras e domingos, entrava no consultório por volta das três da tarde. A empregada entregava-lhe a lista dos clientes inscritos; e a romagem das misérias físicas, dos dramas encobertos, das enfermidades que se ostentam e das que se escondem, de toda a lama, mais ou menos perfumada, do Chiado, deslizava pelo seu gabinete de consulta, ao longo de quatro ou cinco fatigantes horas. Mas nem aí o telefone e os colegas o deixavam, num tumultuar de vidas em perigo, de gritos de socorro, de apelos lancinantes de mãos ou de noivas, num ulular de sofrimento contínuo, à margem ou a par daquele espraiar de queixas e de misérias burguesas que os «doentes com hora marcada» pormenorizada e fastidiosamente iam arrastando, na luz velada pelos vidros foscos, no ambiente morno de doenças e de seres catalogados. (...) Casara muito nova, casamento do agrado dos pais e também de sua escolha, embora não de paixão. Filha única, herdeira de uma esplêndida casa de lavoura e de prédios inúmeros na cidade, tivera o pai pressa em a arrumar com genro da sua preferência, temente aos que a rondavam na mira só da fortuna. Era a desconfiança o traço mais característico da maneira de ser do visconde; de tudo e de todos desconfiava, reduzindo a três ou quatro intímos o número de frequentadores da sua casa, a todos mais fechada, numa surda hostilidade de misantropo e de avaro. JOAQUIM PAÇO D'ARCOS*, In. O Caminho da Culpa *Foi presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, cargo que exercia aquando da sua extinção, em 1966, na sequência da atribuição do Prémio Camilo Castelo Branco a Luandino Vieira, que estava preso no Tarrafal. Joaquim Paço D'Arcos condenou a decisão do júri, colocando-se ao lado do regime ditatorial de Salazar, e colocando-se a si próprio contra a maioria dos escritores portugueses. Veio a sofrer outro tipo de censura, diferente daquela do regime salazarista, a do desprezo, da indiferença e do esquecimento. Estou em crer que, não fosse este episódio, e pese embora o seu pensamento político conservador e as suas ligações ao poder, seria hoje em dia um dos autores obrigatórios nos programas escolares.

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