quinta-feira, 26 de abril de 2007

soneto XXII

Quantas vezes, amor, te amei sem te ver e talvez sem me lembrar 
sem reconhecer teu olhar, sem olhar-te, centáurea, 
em regiões hostis, num meio-dia ardente: 
tu eras só o aroma dos cereais que amo. 

Vi-te talvez, imaginei-te ao passar erguendo uma taça 
em Angol, à luz da lua de Junho, 
ou eras tu a cintura daquela guitarra 
que toquei nas trevas e soou como o mar desmedido. 

Amei-te sem o saber, e procurei a tua memória. 
Nas casa vazias entrei com lanterna para roubar o teu retrato. 
Mas eu já sabia como eras. De repente 

enquanto lias comigo toquei-te e a minha vida parou: 
estavas diante de mim, reinando sobre mim, e ainda reinas. 
Como fogueira dos bosques, o fogo é o teu reino.  

PABLO NERUDA, In. Cem Sonetos de Amor [Tradução de Albano Martins, Campo das Letras, Maio de 2004]

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