sexta-feira, 20 de abril de 2007

carta de Ofélia Queiroz a Fernando Pessoa*



Fernando,

Vai decerto parecer-lhe bastante estranho receber uma carta minha, mas já que foi tão amável não hesitando confiar-me a sua fotografia, sabendo que era para mim, e tendo o Carlos confessado que, não sabendo mentir, me traiu e traiu o Fernando - porque o combinado comigo era pedir-lhe a fotografia, sem dizer para quem era, e creio que o combinado com o Fernando era não me dizer que lhe tinha dito que era para mim. - Enfim, com tanta combinação tinha por força que dar asneira, asneira essa, que só resultou em benefício para a minha pessoa. 1.º porque alcancei uma coisa que tanto desejava e tanto prazer me dá. 2.º porque me encorajou a escrever-lhe para lhe agradecer de todo o coração a sua interessante fotografia - em fragrante delitro - não tem vergonha?!...
Também, se o Carlos não conseguisse que o Fernando lha desse, estava condenado a ficar sem a dele, com a dedicatória e tudo, porque eu já tinha jurado roubar-lha. Assim gostei muito mais por ter vindo propriamente das suas mãos, com destino à minha pessoa, embora da parte do Fernando sem prazer algum...
Adeus Fernandinho, se quiser dar-me a alegria de receber notícias suas, pode fazê-lo para a Praça D. João da Câmara, que é onde tenho estado ultimamente.
Subscreve-se muito grata a
Ofélia



*Este post foi escrito a propósito do pedido de alguns leitores, após a leitura do post carta de Ofélia Queiroz a Álvaro de Campos, que também me perguntaram em que livro podiam ser encontradas as cartas. Por minha falta (meu esquecimento) olvidei-me de referir o livro, e a edição. Aqui fica, para os interessados: Cartas de Amor de Ofélia a Fernando Pessoa, Assírio & Alvim, Novembro de 1996, organização de Manuela Nogueira (meia-irmã de Fernando Pessoa) e Maria da Conceição Azevedo.
No verso da fotografia (igual áquela que coloquei neste post) que Fernando Pessoa ofereceu a Carlos Queiroz, pode ler-se: «Carlos: isto sou eu no Abel, isto é, próximo já do Paraíso Terrestre, aliás perdido. Fernando» No verso da fotografia que ofereceu a Ofélia Queiroz escreveu: «Fernando Pessoa em flagrante delitro

1 comentário:

  1. Ás vezes pergunto-me se a Ophélia terá mesm existido... a sério! Mas, partindo da quase-certeza ( que nnc se pode confiar td! ) que sim... não imaginaria compaanheira melhor para Pessoa porque, ao fim e ao cabo, ela foi o que ele, msm sm pedir, lhe pidiu que fosse!
    É mt bonito de ler o que escreveram, mt msm! :)

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