sexta-feira, 16 de março de 2007

Escrevo à tua memoria, amor, sem teres morrido - Poema de Fernando Pessoa

Escrevo à tua memoria, amor, sem teres morrido,
e à memória desse amor, em nós, nunca sabido
éramos rapazes, tu era mais novo e eu maior
tivéssemos sabido amar e ternos íamos amado
tivéssemos descoberto o caminho do amor e teríamos achado os seus prazeres
mas, jovens então, era de irmão nosso amor
contudo, se te encontrasse hoje, talvez tudo fosse igual
tenho vergonha, agora, de ser o que não sabia outrora
talvez fosse melhor, tal como foi, pois a chama virginal do amor
não levou os nossos sentidos ao fogo pleno e pior
lembro-te muito e a alma suspira tristemente em mim
recordas-me também algumas vezes? E sentes algo assim?
Hoje sei que teria sido melhor termo-nos amado
Hoje sei isso, mas não quero pensar demasiado
eras atraente e belo, eu não, apenas amava
crava-se mais em mim, a marca desta doença antiga
Que só os gregos, porque eram belos, tornaram bela.

FERNANDO PESSOA (poema inédito, publicado no Ípsilon de hoje, traduzido do inglês por Luísa Freire)

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