domingo, 31 de dezembro de 2006

contra a pena de morte

É hora de afirmar liminarmente a minha oposição à pena de morte. Tal como o Luís Mourão. E como o João Paulo Sousa. Subscrevo as suas palavras.

sábado, 30 de dezembro de 2006

a todos os ditadores com apoio americano

Que todos os ditadores que proventura se sintam tentados a usufruir do apoio americano saibam retirar uma lição com a morte de Saddam Hussein; demitam-se, ou nem sequer tentem chegar ao poder, porque o apoio só é válido até que sirva os intentos ditatoriais (imperialistas?) americanos. Depois finda. A execução de Saddam Hussein não representa uma vitória das democracias ocidentais; representa tão-só mais uma jogada no xadrez americano, com que as sucessivas administrações da casa branca (white house), vem jogando ao gato e ao rato com o resto do mundo.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Confusão é uma palavra que inventámos para descrever uma ordem que não compreendemos.

HENRY MILLER, Trópico de Capricórnio (1939)
O Caos é uma ordem por decifrar.
JOSÉ SARAMAGO, O Homem Duplicado (2002)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

As luzes que se estendem na planície acendem a noite
São pirilampos encantados dormindo
As estrelas que dormem no firmamento vigiando a noite
São borboletas brilhantes sonhando
Mas só os olhos hialinos que me fitam têm magia
São duas pérolas que me aconchegam
Cintilando como cristais no ventre da noite

citação 7


Eis que morreste. Mortalmente triste
Divaga a flor da aurora entre os teus dedos
E o teu rosto ficou entre as estátuas
Velado até que o novo dia nasça.

Se nenhum amor pode ser perdido
Tu renascerás - mas quando?
Pode ser que primeiro o tempo gaste
A frágil substância do meu sono.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in. "Coral"

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

como acabar de vez com a sida...

«Uma vez casados, fiéis. E antes do casamento, a abstinência. São estas as armas para combater a sida, de acordo com o cardeal Javier Lozano Barragan, que preparou um estudo sobre o uso do preservativo feito a pedido do Papa Bento XVI. » (Público).

Apoio ao Ritornello

O programa Ritornello da Radiodifusão Portuguesa, da autoria de Jorge Rodrigues, é provavelmente o programa de maior audiência de toda a Antena 2. O Ritornello é produzido há mais de 10 anos com uma imaginação, diversidade, inteligência, sentido formativo e informativo tais que se tornou, na prática, uma referência incontornável para todos os amantes da música dita erudita em Portugal.Mas não só da música. A poesia, o teatro, a literatura, a dança e a cultura portuguesa, em geral, circulam no Ritornello como numa grande coreografia, cruzando-se através da temática de cada programa – criteriosamente escolhida pelo seu autor – e por meio dos convidados que nele têm tido voz. Ao longo dos últimos 10 anos, mais de 2000 individualidades, nacionais e estrangeiras, foram entrevistadas por Jorge Rodrigues, permanecendo o testemunho de muitos gravado na memória dos portugueses.Recentemente, alegadamente por conduzir entrevistas desinteressantes (!), a direcção da Antena 2 proibiu Jorge Rodrigues de continuar a entrevistar convidados portugueses. Ficam assim excluidos do programa as vozes de José Saramago, de Agustina Bessa Luís, de Paula Rego, de Maria João Pires, etc.,etc... Sob qualquer ângulo que se observe, a medida é insólita e obtusa, fazendo lembrar tempos dos quais Portugal se libertou com dificuldade.Que serviço público é este que proíbe a voz dos artistas e intelectuais portugueses no programa de maior prestígio de toda a Antena 2 ? Logo aquele que mais dinamicamente tem contribuido para manter os ouvintes, directa ou indirectamente interessados, ao corrente das causas culturais portuguesas! O mérito de Jorge Rodrigues deveria ser premiado por ser do interesse cultural nacional e não obstruido desta forma ridícula.Se discorda desta proibição e se acha que os artistas e intelectuais portugueses merecem continuar a ser entrevistados no Ritornello, por favor dê o seu apoio a este protesto assinando em http://www.PetitionOnline.com/r1tornel/petition.html e divulgando esta informação.Muito obrigado,António Chagas Rosa

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

citação 6

...eis que cada metade, desejando a outra, a procurava; e os pares, estendendo os braços, agarrando-se no desejo de se reunirem, morriam de fome e também de preguiça, porquanto não queriam fazer nada no estado de separação.

PLATÃO, Banquete
Post-Scriptum: Este post ocoreu-me após a leitura do blog Senhora Sócrates.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

citação 5

Não existe nada mais estranho e espinhoso do que as relações entre pessoas que só se conhecem de vista - que diariamente, mesmo hora a hora, se encontram, se observam e que têm assim de manter, sem cumprimentos e sem palavras, a aparência de desconhecimento indiferente, devido ao rigor dos custumes ou a caprichos pessoais. Entre elas existe inquietação e curiosidade exacerbada, a histeria da necessidade insatisfeita, anormalmente recalcada, de conhecimento e comunicação e sobretudo também uma forma de consideração tensa. Pois o ser humano ama e respeita o outro ser humano enquanto não está em posição de o julgar e o desejo é produto de um conhecimento insuficiente.

THOMAS MANN, Morte em Veneza

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

A Noite Desce

a noite desce
no horizonte
até à janela
pelos teus ombros
e caminha
esguia
para o novo dia

tu queres ir embora
mas
espera um pouco
ainda está escuro
e frio
o teu corpo
junto ao meu

Poema de André Benjamim

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

(a mário de sá-carneiro)


Há dentro de nós
sempre a balouçar
um balouço, voz
sem poder gritar.

P'ra um lado o fim,
o abismo, precipício...
N'outro a vida assim
(ou só um indício):

Sempre igual, igual...
Cada um calado,
sabendo o seu mal.
Não ser desejado...

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

não cismes... que importam as recordações? no final desta estrada não encontrarás nada quanto muito as angústias, as lamentações aquilo que não fizeste amigos, amantes, sonhos que perdeste tudo o resto ficou espalhado nos caminhos movimentados nas veredas estranhas nas ruas sinuosas e nas curvas inesperadas que percorreste mas não lamentes que as recordações são como flores plantadas na berma da vida. cheira-as apenas não tentes colhê-las. deixa que sequem como ternas lembranças que um dia te ofereceram

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

saudade

dizias...
e eu acreditava
acreditava
porque as tuas palavras tinham
um sorriso
pronto a saltar
dos teus lábios
para a minha boca

dizias...
e eu acreditava
acreditava
mas as tuas palavras vinham
com um aviso
escondido no teu olhar

dizias...
e eu acreditava
acreditava
porque me seduzias

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

no tempo da poesia

corríamos para o regato
e líamos Sophia
à sombra dos salgueiros
trocávamos beijos apaixonados
juntávamos sonhos e desejos
e dividíamos medos e receios

fugíamos para as cearas
e líamos Eugénio
quando ouvíamos o riso
dos rapazes que se aproximavam
e percorria o teu rosto
enquanto eles se banhavam

e nem as trovoadas repentinas
que nas tardes quentes de verão
explodiam
nos separavam

este blog é pelo sim!

Uma iniciativa do Daniel Oliveira, via 2 + 2. Junte-se a esta iniciativa!

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

pedido de desculpas

para forçadamente forçar a passagem da minha antiga conta blogger para a nova versão beta, vi-me obrigado a apagar o blog por completo, recomeçando tudo de novo. assim, tive que republicar todos os posts que já havia publicado, mas infelizmente o mesmo não é possível com os comentários. a todos os bloggers que aqui haviam deixado o seu comentário, o meu pedido de desculpas. é que não tive paciência para esperar que a google que permitisse fazer a transferência... fiz tudo manualmente, criando uma nova conta no novo sistema... P.S. Se alguém souber como repor os comentários aos devidos posts... que diga; que as minhas competências informáticas não chegam a tanto nem a tão pouco...

citação 4

O Estrangeiro -De quem gostas mais?, diz lá, estrangeiro. De teu pai, da tua mãe, de tua irmã, ou do teu irmão? -Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão. -Dos teus amigos? -Eis uma palavra cujo sentido sempre ignorei. -Da tua pátria? -Não sei onde está situada. -Da beleza? -Amá-la-ia de boa vontade, se a encontrasse. -Do oiro? -Odeio tanto, quanto vós a Deus. -então que amas tu, singular estrangeiro? -Amo as nuvens... as nuvens que passam... as maravilhosas nuvens!
CHARLES BAUDELAIRE, O Spleen de Paris

citação 3

Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar; e se nada acontece, bebe-se para que aconteça alguma coisa.
CHARLES BUKOWSKI

conjugação de um desencontro

(a mário cesariny)

eu venho tu vais eu fico tu passas eu contino tu voltas

escrito a 16 de Abril de 2003, anteriormente publicado no blog As Minhas Histórias Verídicas.

O Encontro

Era final de Novembro. Há dias que não parava de chover.

O céu plúmbeo daquele dia indicava que continuaria a chover por longas horas. Estava desesperado. Sentia uma angústia, mas não sabia qual a sua razão. Percorria o longo corredor sombrio num vaivém contínuo, parando apenas para me ver reflectido no espelho do fundo, sem me reconhecer. Depois de algumas horas assim, voltei para o meu pequeno quarto e sentei-me à secretária.

Desde que começara a chover que não saía de casa. Agora a minha ansiedade ia aumentando. Queria ver-te. A minha cabeça caiu pesadamente sobre os braços cruzados.

Nessa tarde a chuva parou, sem que, no entanto, o clima tivesse melhorado. Assomei à janela; a tímida rua ia-se enchendo de transeuntes. O vento soprava furiosamente e a tarde estava escura e fria. Vesti uma gabardina e pus um cachecol em volta do pescoço. Como a ameaça de chuva não se desvanecera por completo, peguei num guarda-chuva e saí.

Ao transpor a porta, de imediato, perscrutei o teu modo de andar no cimo da rua, que vinhas descendo; visto que eu iria subir esta mesma lúgubre rua, o nosso encontro era inevitável. À memória veio-me a reminiscência do dia em que pela primeira vez te vi, como a lembrança dos amantes ao recordarem o dia em que se conheceram. Terna e suave.

Avancei com um passo regular, tentando disfarçar o nervosismo, mantendo para tal um andar o mais natural possível, embora não soubesse o que é que isso era. Os traços do teu rosto começavam a definir-se na amálgama da tua silhueta difusa; os teus olhos castanhos; o teu cabelo liso; cada recanto do teu corpo. Era como se te conhecesse desde sempre; mas cada curva de ti permanecia misteriosa.

Após esse longínquo dia pertences-me; sem o saberes; fazes parte de mim. Cruzo-me contigo diariamente; mas nunca trocámos uma palavra alheada ou um sorriso distraído; não sei o teu nome. No entanto, a cidade é pequena, acabamos por nos conhecer todos.

Um arrepio percorreu o meu corpo.

Pensei trocar de passeio; como me podia sujeitar a tal infâmia? Mas não teve a força necessária essa minha decisão; segui em frente, tentando não pensar em nada. Queria afastar do meu pensamento a tua imagem. Levantei a cabeça e abri os olhos; estavas à minha frente; viraste a cabeça para uma montra.

«Tu conheces-me. Eu conheço-te.» pensei, e conclui, «ambos sabemos isso.»

Mas as convenções sociais impedem-nos de esticar o braço ou encostar a face; um acto tão simples e aparentemente tão inofensivo como cumprimentarmo-nos e irmos tomar uma bebida juntos está-nos assim vedado.

Um pensamento inquieta-me, «o que pensas de mim? Quem sou Eu para ti?»

Quantas vezes me tenho deitado, e enquanto olho o tecto através da semi-penumbra à espera de adormecer, vou reescrevendo a tua biografia; e a biografia da nossa relação...

Passo por ti. É o momento em que nos cruzamos. A minha respiração fica mais pesada, como se me preparasse para falar. Tu levantas a cabeça como se te preparasses para ouvir. Mas passámos e continuámos. Ainda pensei em virar a cabeça para trás e chamar-te.

«Nem o teu nome sei; fica para outro dia» pensei, como se tivesse, enfim, tomado uma resolução.

Entretanto, a chuva recomeçara.

citação 2

Detesto as vítimas que respeitam os carrascos.
JEAN-PAUL SARTRE, In. "Os Sequestrados de Altona"

citação

Não se controle. Sai das profundezas desses pensamentos que não compreende e estenda-os ao sol para saber o que significam.

EDWARD MORGAN FORSTER, In. "Um Quarto com Vista"

Mafalda

Começo este mês (re)lendo a sempre actual Mafalda, do Quino. Agora numa nova edição, da Editorial Teorema. Uma leitura agradável, que aconselho a todos.

11 de Fevereiro de 2007

Faça deste dia um dia histórico; ou prefere continuar a viver num país do terceiro mundo?

Homenagem a Cesariny


Um poema da minha autoria dedicado a Mário Cesariny, baseado n' " os anos felizes"

eu tlim tecnologias
tu tlim ciências sociais
ele tlim humanidades
nós tlim desemprego
vós tlim senhora
eles tlim bolsos cheios


A não perder: Cadáver Esquisito , por Insónia

Tal Vez um Nome

Três horas da manhã. Ligo a televisão e volto a desligá-la, dominado por uma enorme indecisão. Estou sozinho e, embora cheio de sono, vazo insónias. Chego-me à alta janela da fachada frontal da casa que habito: o céu está coberto de densas nuvens; uma ferida rasgada pela Lua deixa passar raios de luz lôbrega: parece que as trevas saíram das entranhas do inferno e passeiam-se pelo mundo. Um gemido «uma coruja ou um morcego» penso, assusta-me, e atira-me impetuosamente para trás. Fecho as cortinas assustadas, e colo-me, com o coração em polvorosa, a uma estante encostada à parede branca de terror. Do céu começam regorgitar gritos, luminosos, metálicos, sangrentos: começa a chover torrencialmente: pesadas gotas de água escura, que caem estrondosamente, como se corpos de anjos assassinados estivessem a ser atirados para a Terra.
Fico alguns minutos colado à estante, até que por fim, depois de passado o temor da súbita tempestade, me recomponho e fico às voltas mais alguns minutos, sai-o da sala, e continuo às voltas pela casa: acendo e apago as luzes durante alguns minutos, como se precisasse disso para viver, como preciso de respirar.
Rajadas de vento batem furiosas nas portas e janelas da grande casa abandonada a si mesma. O vento quer entrar, e, como o não deixam, faz birra como uma criança a quem tiraram um doce. Mas não o censuro: lá fora está um frio glacial, quase tão frio como na minha alma solitária... percebo-te!
Também eu gostaria de ter neste momento algum lugar onde me refugiar, onde me aquecer...
Desesperado procuro qualquer coisa que me anime, que me dê vida; mas como, se à minha volta está tudo repleto de objectos inanimados, e nem ao menos um animal – um cão, um gato, ou um papagaio...
Nada! Só eu, uma enorme casa vazia, e o vento colérico que zurre lá fora, mais nada!
Remexo nuns velhos papéis do escritório, e, momentaneamente, penso em dar uma limpeza à secretária, porém, antes de começar já me sinto fatigado... Penso em telefonar a alguém, mas, a esta hora da madrugada de Domingo, quem é que estará acordado? Ninguém! Desisto. Sento-me no velho sofá e embrulho-me numa manta meia rota. Sinto os segundos correrem-me pelas veias e artérias, sinto-os a apertarem-me o coração, e a fustigarem-me o cérebro, muito lentamente, até as dores me fazerem desfalecer...
Um estrondoso barulho no andar de baixo faz-me despertar do meu doloroso conforto; desço as escadas a correr, contorno o pilar e sigo por um longo corredor sombrio (com a pressa esqueço-me de ligar as luzes), a meio do corredor tropeço, solto um grito assustado, mas ninguém deve ter ouvido, pois a ventania ganha cada vez mais força. Levanto-me pavorosamente, ao encontro do barulho ensurdecedor. No fundo do corredor há outro interruptor: ligo a luz, e todo o medo se esvai: vejo tudo perfeitamente: é apenas uma porta, que dá para o quintal, que se abriu, provavelmente com a força do vento. Sempre entraste...
«Sempre ajudou a esquecer a solidão, e passaram mais alguns segundos», penso, como que a confortar-me a mim mesmo.
Sigo o caminho de regresso a passo muito lento; antes de voltar a subir as escadas e voltar à minha sala, ao meu sofá, e à minha TV, passo ainda pela cozinha: abro o frigorífico, que me parece vazio, abro as gavetas dos armários, procuro no congelador, tento no fogão, na máquina de lavar louça; remexo tudo, mas nada, simplesmente, parece que tudo ao meu redor se tornou, de repente, invisível. Nada!
Tudo deixou de existir, nada pode curar a minha alma ferida...
Só ainda passaram três quartos de hora. Um vendaval de pensamentos e emoções varre-me o cérebro. Quase não consigo respirar. «Quem me dera ver um raio de luz do Sol... Quem me dera...». O dia teima em não chegar. É Inverno e as noites são mais longas e mais difíceis de ver passar para uma pessoa abandonada a um destino deserto... Boa noite, esta para os amantes, que a esta hora não devem ter ainda notado a tempestade mortífera que está lá fora. Para eles esta noite deve ser melhor ainda, que os suores quentes dos seus corpos aquecem-se mais um ao outro. Hoje, certamente, o sabor de se possuírem é felicidade eterna, suprema...
Mais tarde, bem de madrugada, quando as trevas que agora se abatem sobre a superfície terrestre evaporarem, e os primeiros raios de luz começarem a dourar os campos e as cidades, e os primeiros amantes se levantarem, vão carinhosamente dizer um para o outro:
– Ó meu amorezinho, será que choveu durante a noite?
– Talvez... – responderá, com um beijo na face, o outro amante; e eu, sozinho, sentirei a minha solidão furar com mais força e peso o meu débil coração, enfraquecerei até cair de joelhos, e, arrastando-me, chegarei à minha cama fria, e, talvez então, adormecerei, quando já for dia...
Voltei à sala, onde me acomodei no sofá, e ali decidi permanecer até que o novo dia se resolvesse a nascer. Os pensamentos continuaram desalinhados e sinistros; o mínimo ruído assustava-me profundamente...
Quatro horas da madrugada. Nem o primeiro sinal de sono, ou vontade de dormir. Uma total negridão envolve-me, mas...
– Está aí alguém? – Perguntei demoradamente. Não obtive resposta. Respirei de alívio, «deve ter sido a minha imaginação», pensei aliviado.
Mas seria? – Alguns minutos depois voltei a ver qualquer coisa mexer-se...
– Está aí alguém? – Voltei a insistir na minha anterior pergunta, e voltei a não obter qualquer resposta. Insisti:
– Está aí alguém?... Responde! – Ordenei, já com palavras ofegantes. Então ouvi uma voz angélica:
– Não tenhas medo.
– Não tenhas medo?!? Entras em minha casa furtivamente, e dizes-me para não ter medo?... Quem és tu?
– A única pessoa que te conhece, que gosta de ti.
A sua resposta deixou-me a garganta entupida, não consegui dar resposta.
– Deixa-me deitar a teu lado.
– Tens o sofá todo para ti...
Comecei a afastar-me lentamente em direcção ao interruptor da luz; mas, sem que eu me apercebesse, chegou-se a mim, por trás, e abraçou-me pela cintura. Nesse momento devo ter perdido a consciência: quando vim a mim novamente estava nu sobre o sofá, estava a velha manta com que me tapava no chão. Levantei-me sobressaltado.
«O que é que se passou aqui?», pensei, assustado. Revistei a casa toda, de cima a baixo, mas nada, não conseguia encontrar nada que se relacionasse com o estranho personagem que eu tinha tido a sensação de ter visto, ainda há poucas horas.
Tinha já desistido das minhas buscas, quando, de repente, vi qualquer coisa brilhar, com o reflexo do sol que ia alto: uma pulseira com uma inscrição: talvez um nome.
(inédito)
os anos felizes eu tlim ciências tu tlim matemática ele tlim trabalhos manuais nós tlim recreio vós tlim senhora eles tlim castigo
Mário Cesariny In "Primavera Autónoma das Estradas"

Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006)

being beauteous O meu amigo inglês que entrou no quarto da cama e correu de um só gesto todas as cortinas sabia o que corria digo disse direis era vergonha era sermos estranhos mais do que isso: estrangeiros e tão perto um do outro naquela casa mas eu vejo maior mais escuro dentro do corpo e descobri que a luz é coisa de ricos gente que passa a vida a olhar para o sol cultiva abelhas no sexo liras na cabeça e mal a noite tinge a faixa branca da praia vai a correr telefonar para a polícia E não bem pelas jóias de diamante os serviços de bolso e as criadas digo ricos de espírito ricos de experiência ricos de saber bem como decorre para um lado o sémen para o outro a caca e nos doces intervalares a urina as bibliotecas as estações o teatro tudo o que já amado e arrecadado no canto do olho a implorar mais luz para ter sido verdade O meu amigo inglês não se lembrava senão dos gestos simples do começo e corria as cortinas e criava para além do beijo flébil que podemos a viagem sem fim e sem regresso

Mário Cesariny, In. "Pena Capital" (Assírio & Alvim)

Insónia




Penso no teu corpo, na minha cama fria
Estendido noutra cama distante
Penso no teu corpo, numa cama distante
Estendida, deixas a minha cama fria

Na minha cama fria, penso no teu corpo
Noutra cama quente estendido
Abraça outro homem, o teu corpo
Que me deixou aqui estendido

Na minha cama fria, a pensar no teu corpo
A pensar no tempo que não volta jamais
Imagino-te a beijar outro corpo,
E sinto os lábios que não voltarão jamais

Penso no teu corpo, fremindo de prazer
Numa cama estranha, fremindo
Envolto nos lençóis, fremindo de prazer
Abraçando outro corpo, fremindo

Estranhos amplexos, estranhos beijos
Lasciva, contra outros lábios
Gemendo de prazer, estranhos desejos
Murmurados pelos teus lábios

Numa cama distante, o teu corpo
E eu aqui sozinho, a pensar em ti,
Na minha cama fria, a pensar no teu corpo
Exausto noutra cama, e eu a pensar em ti

Na minha cama, entrega-te, mata-me
A pensar em ti até ficar exausto...

Contra a Homofobia

Post Copiado do blog Da Literatura:

Não esperava ver Saramago e António Vitorino ao lado de Gore Vidal, Salman Rushdie, Tom Stoppard, Edward Albee, Tony Kushner, Russell Banks, Judith Butler, John Patrick Shanley, Martin Amis, Ian McEwan, Dario Fo, Elfriede Jelinek, Richard Sennett, Merryl Streep, Elton John, David Bowie, Edward Norton, Bernardo Bertolucci, Mike Nichols, Dario Fo, Elfriede Jelinek e dezenas de outros escritores, actores, cineastas, políticos, etc., no rol de subscritores desta petição internacional contra a homofobia(...)

Mais um excerto...

– Podia parar tudo... Ficarmos só nós os dois. Sós, no momento irreversível em que os nossos olhares se tocam... E tudo seria perfeito, seríamos felizes. – É impossível! – Diz-me. – Ambos o sabemos! – E, no entanto, real... – Talvez... – Quem quer que assim seja? – Pergunto-lhe. – Ambos! – Ou nenhum... – Replico. É um complicado jogo de probabilidades...
In, "Os Cadernos Secretos de Sébastian" (no prelo)

Falta uma semana e meia...

Enquanto não sai (finalmente) a edição do livro, fica mais um excerto:

«Que lhe fiz eu?» Questionava-me, emaranhando-me em complicados novelos de pensamentos difusos e desconexos, onde me perdia horas a fio, absorto, acabando por olvidar a ponta do longo cordão – e os caminhos que tecera para chegar às conclusões delirantes que jamais me satisfaziam. Alheado, eu definhava enquanto o mundo à minha volta prosperava. «Que posso fazer para a ter de volta?» Quando formulava esta questão, ela esbarrava nas recordações inevitáveis da ponta dos seus dedos brancos remexendo no tufo negro do meu cabelo, ou na lembrança voluptuosa dos seus lábios finos, de desenho minucioso, resistindo a ser beijados até ao último instante, em que se entregavam em cómicas capitulações. «Porquê?» Jamais encontrava resposta. Mas continuava a fazer a pergunta vezes e vezes sem conta, até se gastar, desaparecendo como uma névoa matinal. Por vezes dava murros e pontapés em tudo que se atravessava no meu caminho dominado por violentos ataques de fúria ou desespero, consoante o ponto de vista. Mas nunca conseguia passar além das rememorações sombrias das tardes quentes em que nos encontrávamos no velho banco do vasto jardim. Sentávamo-nos lado a lado em silêncio, como um casal para quem as palavras já não são necessárias. Ela encostava a sua cabeça no meu ombro, sussurrando a palavra mágica ao meu ouvido; deixava-a escorregar pelo meu peito, indo repousar no meu colo: sorria como uma criança traquina, provocando-me com a palavra doce e fugindo de seguida, antes que a beijasse. Adiava esse momento até ao último instante, até o meu desejo estar prestes a rebentar. E beijava-me. – Amo-te! – Dizia desprendida. – Como se se tivesse entregue para sempre e por completo – a palavra sedutora, invadindo-me de plena felicidade. – Vou ficar contigo – pausa prolongada – para sempre! – Como pode alguém molestar-nos a alma desta maneira? – Nada me importa!... Bastas-me tu! Vamos alimentarmo-nos de carícias, beber de longos beijos e comer os nossos sorrisos doces! – Onde fora ela buscar estas palavras, que me soavam bem como a poesia? Como pôde fazer-me isto? Como? Como é que pôde existir alguém tão reles, tão vil, tão mesquinho, tão desprezível...? «Meu deus, como?» Perguntava a mim mesmo, no auge do meu desespero. Sim! Foi culpa minha. Deixei-me seduzir e sofri as consequências. São as palavras sedutoras que ainda ecoam no meu cérebro envelhecido de cansaço. Foram as palavras sedutoras que turvaram a minha visão, impedindo-me de reparar nos sinais evidentes que à minha volta se riam da apaixonada inconsciência. Como pude pensar que eram singulares as palavras maquinais que ela repetia? Nos momentos que tomei como únicos, milhares de bocas beijavam-se e rediziam as mesmas frases feitas. Acima de tudo era revolta, era revolta aquilo que sentia. Revolta por me ter deixado seduzir e revolta por não poder fazer nada, porque não havia nada para fazer, para me deixar seduzir outra e outra vez, outra vez vezes sem conta...

In, "Os Cadernos Secretos de Sébastian" (no prelo)

Eu não consegui olhá-lo e tive receio que reparasse em mim e pudesse pressentir a verdadeira razão por que me havia afastado dele. Afundei-me no meu silêncio, imaginando o que aconteceria se lhe dissesse. Afinal de contas, ele era um provocador nato, sempre pronto para chocar alguém, dizendo uma frase escabrosa ou defendendo o oposto daquilo de que a maioria se gaba. Era uma das maneiras que arranjara para se libertar da sua timidez. Ser outro que não ele, defendendo o contrário daquilo em que acreditava. Era difícil conhecê-lo. – Não sei, mas estão sedentos de sangue! – Respondeu o Fábio. Tremi ao ouvi-lo falar desembaraçadamente, como se não fosse de nós que se falava.

– Aqui ainda se vive na época do fascismo. Merda para isto tudo, não respeitam ninguém! Se eu e um gajo quiséssemos fornicar, porque não havíamos de o fazer?! Não respeitam ninguém!... Aqui ainda não chegou a revolução… – Mas já chegou a algum lado? É que eu não a vi passar... – Meti-me eu na conversa, tentando falar no mesmo tom. O André abriu um livro do poeta chileno11 e, elevando-o ao nível do peito e colocando-se numa posição altiva e posse circunspecta, leu, num tom sisudo, erudito e hábil: – "A revolução é a vida e os preconceitos encarregam-se de cavar o seu próprio túmulo".

In, Os Cadernos Secretos de Sébastian (no prelo, a sair em breve)

Elevada atrás e acima do altar, pendia uma cruz com um cristo moreno e musculado, de longos cabelos ondulados caindo-lhe lubricamente sobre o peito. A cabeça tombada para a esquerda e uma expressão absorta de dor. Um belo peito definido e a barriga encolhida com os abdominais salientes. À cintura uma pequena prega de pano cobrindo-lhe a denúncia da sua humanidade, deixava entrever as vergonhas humanas. Pelos vitrais das enormes vidraças entravam alguns raios de luz coloridos, espalhando-se sensualmente sobre o corpo do cristo.

In "Os Cadernos Secretos de Sébastian" (no prelo)

Os Cadernos Secretos de Sébastian

Foi por isso que escorreguei para os braços dela com uma facilidade desvairada, embora soubesse que não somos amados, temos utilidade: não estamos destinados, somos contingentes. Corpos perdidos, saciando nos encontros uma necessidade.
In "Os Cadernos Secretos de Sébastian" (no prelo)

Informação

O Blog está a ser remodelado. Dentro de minutos voltará a estar disponível