terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Tal Vez um Nome

Três horas da manhã. Ligo a televisão e volto a desligá-la, dominado por uma enorme indecisão. Estou sozinho e, embora cheio de sono, vazo insónias. Chego-me à alta janela da fachada frontal da casa que habito: o céu está coberto de densas nuvens; uma ferida rasgada pela Lua deixa passar raios de luz lôbrega: parece que as trevas saíram das entranhas do inferno e passeiam-se pelo mundo. Um gemido «uma coruja ou um morcego» penso, assusta-me, e atira-me impetuosamente para trás. Fecho as cortinas assustadas, e colo-me, com o coração em polvorosa, a uma estante encostada à parede branca de terror. Do céu começam regorgitar gritos, luminosos, metálicos, sangrentos: começa a chover torrencialmente: pesadas gotas de água escura, que caem estrondosamente, como se corpos de anjos assassinados estivessem a ser atirados para a Terra.
Fico alguns minutos colado à estante, até que por fim, depois de passado o temor da súbita tempestade, me recomponho e fico às voltas mais alguns minutos, sai-o da sala, e continuo às voltas pela casa: acendo e apago as luzes durante alguns minutos, como se precisasse disso para viver, como preciso de respirar.
Rajadas de vento batem furiosas nas portas e janelas da grande casa abandonada a si mesma. O vento quer entrar, e, como o não deixam, faz birra como uma criança a quem tiraram um doce. Mas não o censuro: lá fora está um frio glacial, quase tão frio como na minha alma solitária... percebo-te!
Também eu gostaria de ter neste momento algum lugar onde me refugiar, onde me aquecer...
Desesperado procuro qualquer coisa que me anime, que me dê vida; mas como, se à minha volta está tudo repleto de objectos inanimados, e nem ao menos um animal – um cão, um gato, ou um papagaio...
Nada! Só eu, uma enorme casa vazia, e o vento colérico que zurre lá fora, mais nada!
Remexo nuns velhos papéis do escritório, e, momentaneamente, penso em dar uma limpeza à secretária, porém, antes de começar já me sinto fatigado... Penso em telefonar a alguém, mas, a esta hora da madrugada de Domingo, quem é que estará acordado? Ninguém! Desisto. Sento-me no velho sofá e embrulho-me numa manta meia rota. Sinto os segundos correrem-me pelas veias e artérias, sinto-os a apertarem-me o coração, e a fustigarem-me o cérebro, muito lentamente, até as dores me fazerem desfalecer...
Um estrondoso barulho no andar de baixo faz-me despertar do meu doloroso conforto; desço as escadas a correr, contorno o pilar e sigo por um longo corredor sombrio (com a pressa esqueço-me de ligar as luzes), a meio do corredor tropeço, solto um grito assustado, mas ninguém deve ter ouvido, pois a ventania ganha cada vez mais força. Levanto-me pavorosamente, ao encontro do barulho ensurdecedor. No fundo do corredor há outro interruptor: ligo a luz, e todo o medo se esvai: vejo tudo perfeitamente: é apenas uma porta, que dá para o quintal, que se abriu, provavelmente com a força do vento. Sempre entraste...
«Sempre ajudou a esquecer a solidão, e passaram mais alguns segundos», penso, como que a confortar-me a mim mesmo.
Sigo o caminho de regresso a passo muito lento; antes de voltar a subir as escadas e voltar à minha sala, ao meu sofá, e à minha TV, passo ainda pela cozinha: abro o frigorífico, que me parece vazio, abro as gavetas dos armários, procuro no congelador, tento no fogão, na máquina de lavar louça; remexo tudo, mas nada, simplesmente, parece que tudo ao meu redor se tornou, de repente, invisível. Nada!
Tudo deixou de existir, nada pode curar a minha alma ferida...
Só ainda passaram três quartos de hora. Um vendaval de pensamentos e emoções varre-me o cérebro. Quase não consigo respirar. «Quem me dera ver um raio de luz do Sol... Quem me dera...». O dia teima em não chegar. É Inverno e as noites são mais longas e mais difíceis de ver passar para uma pessoa abandonada a um destino deserto... Boa noite, esta para os amantes, que a esta hora não devem ter ainda notado a tempestade mortífera que está lá fora. Para eles esta noite deve ser melhor ainda, que os suores quentes dos seus corpos aquecem-se mais um ao outro. Hoje, certamente, o sabor de se possuírem é felicidade eterna, suprema...
Mais tarde, bem de madrugada, quando as trevas que agora se abatem sobre a superfície terrestre evaporarem, e os primeiros raios de luz começarem a dourar os campos e as cidades, e os primeiros amantes se levantarem, vão carinhosamente dizer um para o outro:
– Ó meu amorezinho, será que choveu durante a noite?
– Talvez... – responderá, com um beijo na face, o outro amante; e eu, sozinho, sentirei a minha solidão furar com mais força e peso o meu débil coração, enfraquecerei até cair de joelhos, e, arrastando-me, chegarei à minha cama fria, e, talvez então, adormecerei, quando já for dia...
Voltei à sala, onde me acomodei no sofá, e ali decidi permanecer até que o novo dia se resolvesse a nascer. Os pensamentos continuaram desalinhados e sinistros; o mínimo ruído assustava-me profundamente...
Quatro horas da madrugada. Nem o primeiro sinal de sono, ou vontade de dormir. Uma total negridão envolve-me, mas...
– Está aí alguém? – Perguntei demoradamente. Não obtive resposta. Respirei de alívio, «deve ter sido a minha imaginação», pensei aliviado.
Mas seria? – Alguns minutos depois voltei a ver qualquer coisa mexer-se...
– Está aí alguém? – Voltei a insistir na minha anterior pergunta, e voltei a não obter qualquer resposta. Insisti:
– Está aí alguém?... Responde! – Ordenei, já com palavras ofegantes. Então ouvi uma voz angélica:
– Não tenhas medo.
– Não tenhas medo?!? Entras em minha casa furtivamente, e dizes-me para não ter medo?... Quem és tu?
– A única pessoa que te conhece, que gosta de ti.
A sua resposta deixou-me a garganta entupida, não consegui dar resposta.
– Deixa-me deitar a teu lado.
– Tens o sofá todo para ti...
Comecei a afastar-me lentamente em direcção ao interruptor da luz; mas, sem que eu me apercebesse, chegou-se a mim, por trás, e abraçou-me pela cintura. Nesse momento devo ter perdido a consciência: quando vim a mim novamente estava nu sobre o sofá, estava a velha manta com que me tapava no chão. Levantei-me sobressaltado.
«O que é que se passou aqui?», pensei, assustado. Revistei a casa toda, de cima a baixo, mas nada, não conseguia encontrar nada que se relacionasse com o estranho personagem que eu tinha tido a sensação de ter visto, ainda há poucas horas.
Tinha já desistido das minhas buscas, quando, de repente, vi qualquer coisa brilhar, com o reflexo do sol que ia alto: uma pulseira com uma inscrição: talvez um nome.
(inédito)

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