terça-feira, 5 de dezembro de 2006

O Encontro

Era final de Novembro. Há dias que não parava de chover.

O céu plúmbeo daquele dia indicava que continuaria a chover por longas horas. Estava desesperado. Sentia uma angústia, mas não sabia qual a sua razão. Percorria o longo corredor sombrio num vaivém contínuo, parando apenas para me ver reflectido no espelho do fundo, sem me reconhecer. Depois de algumas horas assim, voltei para o meu pequeno quarto e sentei-me à secretária.

Desde que começara a chover que não saía de casa. Agora a minha ansiedade ia aumentando. Queria ver-te. A minha cabeça caiu pesadamente sobre os braços cruzados.

Nessa tarde a chuva parou, sem que, no entanto, o clima tivesse melhorado. Assomei à janela; a tímida rua ia-se enchendo de transeuntes. O vento soprava furiosamente e a tarde estava escura e fria. Vesti uma gabardina e pus um cachecol em volta do pescoço. Como a ameaça de chuva não se desvanecera por completo, peguei num guarda-chuva e saí.

Ao transpor a porta, de imediato, perscrutei o teu modo de andar no cimo da rua, que vinhas descendo; visto que eu iria subir esta mesma lúgubre rua, o nosso encontro era inevitável. À memória veio-me a reminiscência do dia em que pela primeira vez te vi, como a lembrança dos amantes ao recordarem o dia em que se conheceram. Terna e suave.

Avancei com um passo regular, tentando disfarçar o nervosismo, mantendo para tal um andar o mais natural possível, embora não soubesse o que é que isso era. Os traços do teu rosto começavam a definir-se na amálgama da tua silhueta difusa; os teus olhos castanhos; o teu cabelo liso; cada recanto do teu corpo. Era como se te conhecesse desde sempre; mas cada curva de ti permanecia misteriosa.

Após esse longínquo dia pertences-me; sem o saberes; fazes parte de mim. Cruzo-me contigo diariamente; mas nunca trocámos uma palavra alheada ou um sorriso distraído; não sei o teu nome. No entanto, a cidade é pequena, acabamos por nos conhecer todos.

Um arrepio percorreu o meu corpo.

Pensei trocar de passeio; como me podia sujeitar a tal infâmia? Mas não teve a força necessária essa minha decisão; segui em frente, tentando não pensar em nada. Queria afastar do meu pensamento a tua imagem. Levantei a cabeça e abri os olhos; estavas à minha frente; viraste a cabeça para uma montra.

«Tu conheces-me. Eu conheço-te.» pensei, e conclui, «ambos sabemos isso.»

Mas as convenções sociais impedem-nos de esticar o braço ou encostar a face; um acto tão simples e aparentemente tão inofensivo como cumprimentarmo-nos e irmos tomar uma bebida juntos está-nos assim vedado.

Um pensamento inquieta-me, «o que pensas de mim? Quem sou Eu para ti?»

Quantas vezes me tenho deitado, e enquanto olho o tecto através da semi-penumbra à espera de adormecer, vou reescrevendo a tua biografia; e a biografia da nossa relação...

Passo por ti. É o momento em que nos cruzamos. A minha respiração fica mais pesada, como se me preparasse para falar. Tu levantas a cabeça como se te preparasses para ouvir. Mas passámos e continuámos. Ainda pensei em virar a cabeça para trás e chamar-te.

«Nem o teu nome sei; fica para outro dia» pensei, como se tivesse, enfim, tomado uma resolução.

Entretanto, a chuva recomeçara.

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