terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006)

being beauteous O meu amigo inglês que entrou no quarto da cama e correu de um só gesto todas as cortinas sabia o que corria digo disse direis era vergonha era sermos estranhos mais do que isso: estrangeiros e tão perto um do outro naquela casa mas eu vejo maior mais escuro dentro do corpo e descobri que a luz é coisa de ricos gente que passa a vida a olhar para o sol cultiva abelhas no sexo liras na cabeça e mal a noite tinge a faixa branca da praia vai a correr telefonar para a polícia E não bem pelas jóias de diamante os serviços de bolso e as criadas digo ricos de espírito ricos de experiência ricos de saber bem como decorre para um lado o sémen para o outro a caca e nos doces intervalares a urina as bibliotecas as estações o teatro tudo o que já amado e arrecadado no canto do olho a implorar mais luz para ter sido verdade O meu amigo inglês não se lembrava senão dos gestos simples do começo e corria as cortinas e criava para além do beijo flébil que podemos a viagem sem fim e sem regresso

Mário Cesariny, In. "Pena Capital" (Assírio & Alvim)

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