terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Eu não consegui olhá-lo e tive receio que reparasse em mim e pudesse pressentir a verdadeira razão por que me havia afastado dele. Afundei-me no meu silêncio, imaginando o que aconteceria se lhe dissesse. Afinal de contas, ele era um provocador nato, sempre pronto para chocar alguém, dizendo uma frase escabrosa ou defendendo o oposto daquilo de que a maioria se gaba. Era uma das maneiras que arranjara para se libertar da sua timidez. Ser outro que não ele, defendendo o contrário daquilo em que acreditava. Era difícil conhecê-lo. – Não sei, mas estão sedentos de sangue! – Respondeu o Fábio. Tremi ao ouvi-lo falar desembaraçadamente, como se não fosse de nós que se falava.

– Aqui ainda se vive na época do fascismo. Merda para isto tudo, não respeitam ninguém! Se eu e um gajo quiséssemos fornicar, porque não havíamos de o fazer?! Não respeitam ninguém!... Aqui ainda não chegou a revolução… – Mas já chegou a algum lado? É que eu não a vi passar... – Meti-me eu na conversa, tentando falar no mesmo tom. O André abriu um livro do poeta chileno11 e, elevando-o ao nível do peito e colocando-se numa posição altiva e posse circunspecta, leu, num tom sisudo, erudito e hábil: – "A revolução é a vida e os preconceitos encarregam-se de cavar o seu próprio túmulo".

In, Os Cadernos Secretos de Sébastian (no prelo, a sair em breve)

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