sábado, 30 de Agosto de 2014

«Montedor» de José Rentes de Carvalho

Montedor, Rentes de Carvalho
Capa de «Montedor»
de J. Rentes de Carvalho
O que acho que, neste momento ou neste ano, as pessoas descobrirão em Montedor é a aflição de querer sair do Inferno que Portugal era na altura [da sua edição], uma escuridão total nas pessoas; não havia futuro, não havia esperança. Hoje, talvez essa miséria do antigamente se renove, e talvez as pessoas, principalmente aquelas que têm 30 ou 40 anos e que não têm futuro ou se sentem desesperadas, encontrem nesse livro alguma coisa que lhes fale ao coração.
(...)
Eu não tinha qualquer hipótese de construir um futuro em Portugal, eu era rebelde, era mau, era intolerante, furioso... Tinha uma raiva grande, e sair de Portugal salvou-me, porque, se tivesse ficado, ia ser o protagonista de Montedor, o sujeito que está sempre à espera do que sonha e que nunca vai acontecer. Isso cria um desespero interior que é fatal para a pessoa.

J. Rentes de Carvalho, em entrevista ao Público, em Maio, aquando da 8.ª Edição da LeV - Literatura em Viagem. «Montedor» chega às livrarias a 05 de Setembro de 2014; as primeiras páginas podem ser lidas AQUI

sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, por Laurence Sterne

A história de Tristram Shandy é antes de mais a história da sua própria história, a narração da narrativa, uma longa linha que por vezes é esticada e reta, outras é emaranhada e retrocida, umas vezes anda rapidamente para a frente, outras vezes desvia-se, curva, volta atrás, ganha balanço, para depois continuar. Por vezes fala de si mesma, outras vezes entretém-se com outras histórias; como O Conto de Hafen Slawkenbergius (uma personalidade célebre que nunca existiu e que Sterne mistura com outras que foram reais; «hafen» significa “penico”, em alemão, e «slawkenbergius» significa “monte de esterco”). Discorre longamente sobre a importância dos nomes, do tamanho dos narizes, e de tudo o mais que se lembre; pode parecer, à primeira vista, que isto não faz sentido nenhum.

terça-feira, 3 de Dezembro de 2013

Contos para ler antes de morrer*

contos, short stories,

A minha selecção de contos (livros e autores) que todos os amantes de livros e literatura - e deste género em particular - devem ler. No homo literatus - vão lá espreitar.


*Porque depois não dá; a não ser que o paraíso seja - como deveria de ser - uma biblioteca. O pior é que - se for uma biblioteca borgiana - será uma biblioteca de livros inexistentes: o que, por outro lado, está de acordo com a imortalidade - embora, pela mesma lógica - ou outra qualquer - o inferno seja mais apetecível: é onde estarão os livros interessantes...

(Imperdoavelmente, esqueci-me de Géza Csáth...)

quinta-feira, 3 de Outubro de 2013

Os Cadernos Secretos de Sébastian. Entrevista a propósito do lançamento do romance.

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1 - Realidade e ficção no romance?

Não há tal coisa num romance. Num romance, a realidade é ficção, e a ficção é realidade – se assim não for, então não é de um romance que se trata. Portanto, seria igualmente verdade dizer que tudo é realidade, ou que tudo é ficção.
A realidade que possa existir por detrás da escrita, torna-se ficção ao ser transposta para um romance (ou qualquer outra forma de literatura, ou arte), pois está dependente das memórias, e da forma como são evocadas, dos significados que lhes são atribuidos, das ideias através das quais os narradores as exprimem. Por outro lado, a ficção torna-se realidade, ao ser intuida pelos leitores.
Se, ao ler-se um romance, não se acreditar que aquilo que se está a ler é realidade, então todo o prazer que a leitura, potencialmente, possa proporcionar, se esvai: não vale a pena continuar a leitura. E isto, julgo, é verdade para qualquer romance, seja uma história fantástica ou realista...
Em suma, acredito que é irrelevante para o leitor saber o que é realidade-realidade, e o que é realidade-ficção... Talvez, se fosse um romance histórico, isso fosse importante...
A existência uma nota introdutória, alertando para o facto que o romance é baseado em acontecimentos verídicos, tem apenas que ver com uma questão de honestidade e sinceridade, tanto para quem lê, como para o autor, e para aquelas pessoas em quem a narrativa se baseia...
Além destas, há muitas outras pessoas que, se lerem o livro, podem identificar alguns dos episódios relatados. Isto é mais tangível na narrativa do Sébastian, em que a narrativa é mais crua, que na narrativa do André, onde os factos estão mais diluidos e difusos; no entanto, também nesta haverá pessoas que podem afirmar: “É de mim que ele está a falar!”

domingo, 23 de Dezembro de 2012